NASCER POETA

Ontem foi o Dia do Poeta
O dia de quem vive com poesia
Não fiz nenhum poema
Foi esta minha heresia

Hoje escrevo aqui
Para brindar que não sorri
Envelheci um dia
O poema que não pari

Ontem celebrado
Hoje recordado
Amanhã pensado
E todo dia
No coração fincado
De amor e dor suados

Choro, rio
Sinto, reflito
É o cerne que quase jaz
Ofício puro, franco, loquaz

É letrar o sentimento
É sentir o duro pranto
Cardíaco fomento
Borra a tinta, brota encanto

Poesia é todo dia
É sentí-la ao nosso lado
É esquecer odes torpes
Para estar ensimesmado

Contemplar mil horizontes
Regurgitar-se é a meta
É sorrir calado
É chorar sozinho
É quebrar sua janela
Para nascer
Poeta.

João Aranha

21/10/2015

EU QUERIA FAZER STAND UP COMEDY…

– Então, cara… eu queria fazer stand up comedy! Quer dizer, não só por querer fazer, mas porque dizem que eu levo jeito, entende? Dizem que eu sou engraçado, mas não contando uma piada, mesmo porque eu não sei contar mesmo, mas falam que sou engraçado contando histórias reais da minha vida, coisas do cotidiano, reflexões, análises de comportamento, essas coisas, entende? E ainda já disseram que quando eu conto coisas absurdas e fico nervoso eu fico mais engraçado ainda, acredita?
– Poxa, que bacana! E você gostaria?
– Ah, eu gostaria sim. É natural eu ficar falando coisas assim e tirando sarro, mas eu tiro sarro de mim também, o que acho fundamental para qualquer humorista. Rir de si mesmo é uma arte!
– Porra, mas por que não tenta, cara?
– Ah, sabe como é, né?
– O quê?
– Aquela merda do politicamente correto.
– Mas isso você tira de letra! Nem se preocupe com isso! Esse povo gosta é de encher o saco mesmo! É um bando de babaca que não tem o que fazer.
– É mas, se na publicidade, nas novelas e na vida real já existe o politicamente correto, imagina eu fazendo stand up? Vou ser preso no primeiro comentário por alguma ofensa em relação a algum tipo de pessoa ou comportamento humano… Você sabe, né?
– Que nada! O importante é saber fazer a piada. Sendo engraçado é o que vale, cara! E outra, o que poderia ser ofensivo hoje em dia? Pode falar o que quiser! Vai por mim! E se você for fazer mesmo, me convida que eu estarei lá na primeira fila, hein?
– Calma, não é simples assim… Eu preciso tomar cuidado ao fazer comentários que podem discriminar, ridicularizar ou ofender alguém…
– Nada! Fale o que você quiser! Eu estou curioso! Dá uma palinha pra mim, vai… Por favor… Em primeira mão, vai…
– Não… Eu fico com receio… A gente vai ficando velho e vai ficando cada vez mais cusão. A internet é outra coisa que ajuda de um lado mas, dependendo, fode com a gente. Pior que ser preconceituoso é ser mal interpretado, saca?
– Esquece isso! Nada me ofenderia! Isso é coisa de babaca!
– É nada.
– É sim.
– Então me diz… Eu posso fazer alguma piada em relação aos negros?
– Pode, ué!
– E se eu falar algo sobre mulher?
– Claro, man!
– E se eu falar sobre índio?
– Pode também.
– E se eu falar de mendigo?
– Claro que pode.
– E se eu falar de político?
– Nem precisa falar né? Óbvio que pode!
– E se for sobre evangélico?
– Pode, cara!
– E se for sobre judeu?
– Pode.
– E sobre muçulmano?
– Também.
– E se for católico?
– Também.
– Macumbeiro?
– Pode.
– E sobre gordo?
– Pode.
– E anorexia?
– Pode.
– E de careca?
– Pode.
– E gay?
– Pode.
– Travesti?
– Pode.
– Lésbica, bissexual?
– Pode.
– Pagodeiro?
– Pode.
– Funqueiro?
– Pode.
– Heavy Metal?
– Pode.
– Nordestino? Gaúcho?
– Pode.
– Deficiente físico?
– Pode.
– Idosos?
– Pode.
– Alzheimer, Parkinson?
– Pode.
– AVC?
– Pode.
– Aids?
– Pode.
– Autista, síndrome de down?
– Pode.
– Estupro?
– Pode.
– Machismo, feminismo?
– Pode.
– Rico, pobre?
– Pode.
– Militar?
– Pode.
– Nazismo?
– Pode.
– Turista?
– Pode.
– Estrangeiros?
– Pode.
– Prostituta?
– Pode.
– Traficante?
– Pode.
– Ladrão?
– Pode.
– Maconheiros?
– Pode.
– Casamento?
– Pode.
– Futebol?
– Pode.
– Bulling?
– Pode.
– Direita?
– Pode.
– Esquerda?
– Pode.
– Pessoas normais?
– Não.
– Não?
– Não, ué.
– Não posso falar de pessoas normais?
– Não, cara! Pessoas normais não, cara!
– E por que eu não posso falar de pessoas normais?
– Porque normais são normais. E pessoas normais não têm defeitos.
– Não têm defeitos?
– Não. E por serem normais, não teria como tirar sarro ou criar alguma piada baseado em pessoas normais. Portanto, não teria graça e seria, obviamente, uma ofensa.
– Ah é?
– É.
– E por quê?
– Porque o que é normal não tem erro. E se não tem erro, não tem como ser ridicularizado, entende? Qualquer coisa que depõe contra uma pessoa normal é uma ofensa, uma falta de respeito, compreendeu?
– Entendi. Perfeito.
– É isso.
– Sim. Entendi.
– Mas voltando… Viu como você pode falar de um monte de assunto sem ofender?
– Vi sim.
– E aí? Vai fazer seu stand up comedy agora?
– Vou não. Desisti.
– Ué… Desistiu? Por quê?
– Sabe aqueles babacas que criticam humoristas por qualquer coisinha mínima porque não têm a capacidade de encarar como humor, sempre acham que é com ele e sempre consideram que é uma ofensa, uma piada preconceituosa, apelativa, de mal gosto e que deveriam ser todos processados pela justiça?
– Sei.
– Então… uns tem razão.
– E os outros?
– Os outros são normais.

João Aranha

19/05/2015

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25 ANOS

Há exatos 25 anos
Fiz meu primeiro poema
Não ganhei dinheiro algum
Mas resolvi muito problema.

João Aranha

16/04/2015

O LÍNGUA

Era uma vez um substantivo
Ele nasceu com adjetivo
Viveu entre metáforas, eufemismos e orações
Sujeito simples
Trabalhou hiperbolicamente
Casou-se, do verbo amar
Adoecido, ficou sem predicados
Morreu pronome
Virou um artigo indefinido
Ponto final.

João Aranha

11/03/2015

CLARIDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

Um momento único
Um gesto puro
Um presente pequenino
Que me fez esclarecer

O primeiro olhar
O primeiro grito
O primeiro choro
Que a vida se faz valer

O amor em sua labuta
Nas semanas de luta
Gera a flor diminuta
No seu claro nascer

No calor da mãe brotou
E ao velho e novo colo ficou
O pai feliz e todo sem jeito
A entregou ao materno leito

Ansiedade que vira alegria
Cria o sorriso bobo
No adulto tolo
Que nasce com a cria

Menininha de encanto
Na busca de qualquer canto
Escolhe o cantinho quente
Mas sabendo que já é gente

Sorri no natural reflexo
Deixando o casal perplexo
Quer descobrir seu novo mundo
Mergulhar a fundo
Seu mais novo universo
E entre a prosa e o verso
Vem mais um poeminha

No fim de tarde
Já veio conhecendo a noite
Mal sabendo que sua casa
Já era seu primeiro pernoite

A união de dois seres
Abriu caminho à nova semente
Bela e formosa filha
Faz o pai se sentir valente

Escolheu seu lugar, seus pais e sua casa
Veio como anjinho, voando, batendo asa

Deixou o ventre escuro
Para seguir sua pura luz
De trazer ao nosso lar
O contento que não para

O nascer que deixou meu ser
Com a certeza que a vida é linda
E que mesmo pequenininha
Mostra a felicidade que não se finda
Deixando-a mais pura
Mais leve
E muito mais clara.

João Aranha

16/12/2014

ELA

 

 

Ela cai
Ela vai
Ela vem
Ela foi
E se foi
Pro meu bem
Gota à gota
Ela bota água
E de bota em bota
Ela desbota
O que molha além
Ela aperta
Ela afina
Ela cessa
Ela alaga
Ela ultrapassa
Ela seca
Vem molhada pra beber
Vem molhada pra lavar
Vem molhada pra molhar
Gelada ou quente
Ela molha a gente
Às vezes ajuda
Às vezes atrapalha
Às vezes demora
Às vezes não para
Enche e esvazia
Tristeza ou alegria
Acolhe a enguia
No rio segue e vira guia
No mar não salgaria
Cai em pé
Corre deitado
Molha o coitado
Alimenta o gado
E ensopa o sapato
Fode com o dia
Mas é bom pra foder
Molha até foder
Pra foder no molhado
Envolve o apaixonado
Refresca o telhado
Atrasa ou adianta o lado
Antes do Sol casa o espanhol
Depois do Sol casa a viúva
Abraça a uva
E cai como uma luva
Eu te amo e te odeio
Ilustríssima senhora chuva.

João Aranha

15/01/2014

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ARCO-ÍRIS BRASIL

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O tempo está cinza
A economia está no vermelho
E o país ganha no mercado negro

A educação deu branco
A população está verde de fome
E a segurança sempre amarela

Tem mar longe do azul
Tem rosa homofóbico
Tem política cheia de laranja

Tem fúteis de sangue azul
Tem violeta sem água
Tem imprensa marrom

Tem gente que fica bege
Rosa para uns é choque
Vinho causa acidente
E o roxo de hematoma sofre

No velório, o lilás é flor
Jaz um país de amor
E no ocre profundo da terra
Nasce um país de dor

E no prisma de um futuro
O que mais se vê
É a furta cor.

João Aranha

06/06/2014

FIM

FIM

ALMA

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Não existe cara metade.
Existe uma outra face, que te preenche porque você se sente pela metade.

Não existe a metade da laranja.
Existe uma laranja inteira que faz você se sentir menos laranja.

Não existe sapato velho.
Existe outro pé que anda junto com você, com ou sem sapato.

Não existe a tampa da panela.
Existe uma panela de pressão que te deixa em depressão por não conseguir a metade da laranja, a cara metade e o sapato velho para colocar na panela e mexer com tudo, principalmente com o seu coração.

Esqueça a laranja, a cara, o sapato e a panela.

Quando você esquecer tudo isso, com certeza, vai aparecer aquela pessoa.

E quando ela aparecer, você verá que ela é, realmente, uma outra alma, completamente diferente, mas que se iguala nos sentimentos, uma alma que vai te entender, te respeitar, te acompanhar e te amar.

E quando ela chegar,

Por favor,

Faça a gentileza de se entregar.

 

João Aranha

10/02/2014

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POEMA CURTO

Poema
Eu curto
Eu curto poema curto.

João Aranha

15/01/2014

Posso?

Não
Não posso
Não posso dizer
Não posso pensar
Não posso fazer
Não posso fazer o que penso
Não posso pensar o que digo
Não posso dizer o que faço
Não
Não posso
Não posso negar
Negar o que posso
O que posso?
Posso?
Posso
Posso poder
Poder eu posso
Poder negar o poder
Negar o poder do não
Afirmar o poder do sim
Sim, eu posso
Sim, eu posso negar
Não, não posso afirmar
Sim e não
Eu posso
Afirmo que nego
Nego que afirmo
Posso
Posso o que vier
Posso quem vier
Posso quando puder
Posso onde for
Posso e não posso
Devo poder?
Dever pode?
Pode
Posso
E no fundo do poço
No poço do poder em que posso
Me afundo
Levanto
Pronto
Pronto para poder
Pronto para o poder
De poderar
De não ponderar
Com todo o poder que posso
Com todo o poder que peço
Me despeço
Porque sim
Porque não
Eu posso.

João Aranha

15/01/2014

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EU PEDI O QUÊ?

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Cliente
– Por favor, um café.

Atendente
– Puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Sim, senhor… Mas puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Mas puro ou com leite, senhor?

Cliente
– Escuta aqui, você é surdo?

Atendente
– Não, o senhor é que é surdo. Eu já ouvi. O senhor quer um café e eu perguntei se é puro ou com leite, entendeu?

Cliente
– Olha só… Vou te ajudar pela última vez… Eu quero um café!

Atendente
– Mas puro ou com leite, meu senhor?

Cliente
– Eu pedi com leite?

Atendente
– Não.

Cliente
– Então, se eu pedi um café é porque eu pedi um café, se eu pedisse café com leite eu pediria café com leite, entendeu? Então, se eu pedi um café, apenas, somente, e tão somente, por assim dizer, esse café é puro, entendeu, caralho?

Atendente
– Entendi…faz sentido…

Cliente
– Não, não faz sentido. Ele é O TOTAL SENTIDO! ENTENDEU?

Atendente
– Assim você me deixa sentido…

Cliente
– Ai meu Deus… Vem cá… Você entendeu o que eu disse? Entendeu agora porque eu estou puto da vida por causa de um simples café que era pra ser simples e puro, mas você, com seu “puro ou com leite” me deixa cada vez mais puto por não ter o mais puro que eu pedi?

Atendente
– Nossa… Entendi… Desculpe. O senhor tem razão…

Cliente
– Olha… me responde uma coisa… Essa perguntinha de merda que você faz, essa merda de “puro ou com leite” toda vez que alguém pede um café veio de quem? É de você? É você que criou essa perguntinha de merda ou é criação do seu chefe?

Atendente
– Então, na realidade, um pouco meu também, sabe? É que é pra agilizar o atendimento para o freguês! Assim, eu sei de antemão o que ele quer e já entrego certinho! Eu também acostumei, sabe? Mas foi meu chefe que deu essas ordens desde o dia em que eu cheguei aqui, há 5 anos. Como eu falei, ele disse que é pra agilizar o atendimento do freguês…

Cliente
– Ah é? Então, saiba o senhor e a merda do seu chefe que, ao invés de agilizar, você só prolonga esse seu atendimento de merda, porque se eu quero um café é porque eu quero um café, e se eu quero um café é porque o café é um café, simplesmente um café, um café simples, ou seja: um café PURO! E como eu já te falei, se eu quisesse um café com leite eu pediria um café com leite, ou seja, você não precisaria perguntar nada e já me entregaria o café que eu pedi, seja ele puro ou com leite, entendeu, meu rapaz?

Atendente
– Entendi… Tem razão… Agora entendi! Me desculpe… É que a gente acaba acostumando, sabe? Mas o senhor tem razão mesmo. Fim de papo, tá? Já vou servir o seu café… Puro, certo?

Cliente
– Ah, chega… Esquece… Esse papo me tirou a vontade do café… Agora vou querer outra coisa… Ah… me vê uma Coca?

Atendente
– Com gelo e limão?

João Aranha

11/07/2013

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MEU REINO POR 20 CENTAVOS

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Um absurdo
Um grito
Um fato

Outros absurdos
Outros gritos
Outros fatos

Vários absurdos
Vários fatos
Um só grito

Um passo à frente
Olhar pra frente
É brava gente

Deixar a poltrona de lado
Levantar a voz para o alto
Exigir a verdade de fato
E no ato
E sem boato
Pés brasileiros
Cobriram o asfalto

Faixas e cartazes
Indignação… catarses
Pobres oprimidos
Classe média revoltada
Burguesia calada

Vem pra rua
Seja sol, seja lua
Pinta a cara
Desbota o sistema
Sujeira no tapete
Topetes e colarinhos

Saúde na maca
Educação de castigo
Segurança presa
Transporte parado

Direitos amordaçados
Dignidade parca
Vergonha alheia
Hipocrisia em alta
Nação em baixa

A epiglote do povo
É o mote do novo

Por uma boa causa
Por inúmeras boas causas
A cidade parou
O estado assustou
O país acordou
Gigante pela própria natureza
Jazia a cor da tua bandeira

Abre o olho
Escova dente
Toma café
Vai à rua
Vai à guerra
Vai à luta
Luta do cerne natal
Pacífica briga
Ao governo letal

Voz de cansaço
Berro de descaso
Punho fechado de revolta

O país se faz de homens
O país se faz de livros
O país se faz do povo

Política, titica
Polititica
Corre atrás desesperado
Corre atrás do confinado
Corre atrás do continental finado
Mostra tua cara
Sai do hino do futebol
Bota o hino no coração
Vota a favor de uma nação

De verdade pura
De suór exaurido
De sangue pulsante
De alma lavada
Limpa a corja
Aspira o tapete verde

Parte todo e qualquer partido
Já partido há tempos
Agora parte do povo
Parte e reparte o pão
Hasteia a bandeira
Sem dar bobeira
Pra não lutar em vão

Agora faz teu gol de placa
Agora faz teu samba na graça
Porque agora é tua força em massa

Ele acordou
Nós acordamos
Eles perderam o sono

Vandalismo é no topo
Discursos no oco
Não ignore a nação

Solta teu grito
Aperta teu aflito
Levante tua mão

Agora é a nossa hora
Chega de pedir esmola
Pra defender nosso brasão

O que calou em décadas
Berrou aos déspotas
O que é nosso
O que é são

O povo acordou
O povo levantou
Agora acorda congresso
Corre atrás do teu retrocesso
E sana teu senado

Mostre-se em frente às câmeras
Mostre-se em frente à camara
Mostre tua rampa decadente
Porque agora o clima é quente
Queima burocracia
Com 3º grau na má vontade

Porque a voz é liberdade
Porque a voz é fraternidade
Porque a voz é igualdade
E depois da tua não destreza
Resolva e saia à francesa

Porque o país é nosso
E nós estamos bravos
E tudo isso começou
Com apenas
20 centavos.

João Aranha

27/06/2013

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BÚSSOLA MORTA

Não sei para onde vou
Não sei onde estou
Não sei o que sou

Não sei de onde vim
Não sei porque vim
Não sei o que há em mim

Não sei o que busco
Não sei se me ofusco
Não sei se sou brusco

Não faço questão
Não peço perdão
Não beijo o chão

Caminho alagado
Caminho infundado
Caminho sem fim

Escolho o que quero
Desperta meu sério
E espero sorrindo

O mistério do caminho
O caminho da rua
A rua do mistério

Não quero mais nada
Só quero meu tudo
Nem sei o que é meio

Entro no vazio
Saio do todo
Só sinto a metade

A luz não acende
A cruz me suspende
Calvário me sente

Me ponho a chorar
Me ponho a sorrir
Me ponho a me por

Tenho meta e me acabo
Acaba minha meta
Dou cabo de mim

Resido na procura
Resíduo de busca
Procuro meu fim

Não sei para que sirvo
Não sei para que vivo
Não sei se estarei vivo

Vivo para ver
Vivo para conhecer
Vivo para viver

Meu mote é seguir?
Meu mote é esperar?
Meu mote é mudar?

Tracejo amanhã
Desenho só hoje
Rabisquei o meu ontem

Vou embora daqui
Vou pra onde eu me vi
Vou sem norte
Morri.

João Aranha

10/06/2013

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LIVRAMENTO

livramento

Andar
Caminhar
Rodar
Passa um
Passa dois
Passa três
Pra lá de Passa-Quatro
Passa pra cá
Passa pra lá
Passa, pára
Volta a passar
Passa São Paulo cheia
Passa Minas gigante
Passa, pára
Volta a parar
E assim segue
No calor demasiado
No quente grudado
Água, cigarro
Bebida, comida
Saem todos
Voltam todos
E continuamos a rodar
Passam tantas cidades
E tantos caboclos
Gente de bem
Gente que vai além
Além do fim do mundo
Não aquém de ninguém
Há quem reclame
Mas não há quem não ame
Tua terra, tua história
Tua glória e tua dor
Segue em frente
Na mente da gente
É desejo dos pés
Findar o caminho
Fincar no destino
Tua terra de calor
Calor que exala
Do quintal à sala
E desfazer a mala
Já não é mais rara
A hora de se banhar
Para relaxar
E dormir, por favor
Dorme cedo
Acorda cedo
O quente é quente
Mas tem o seu valor
Terra de sol a pino
Terra de vento bom
Terra de rara sombra
Terra que nos aterra
Aterra em outro mundo
Aterra em vasto mundo
Que todo mundo aqui
Não descansa
O mundo aqui sorri
Mesmo embaixo do astro
Que deixa seu rastro
Pra deixar a Lua mandar
Noite escura, breu total
Entra a dona alva e nua
E em sua beleza crua
Ilumina a rua
Das montanhas até o quintal
Temperatura alta
Águas parcas
Aos poucos vou entendendo
E percebendo
Vossa moral
Terra distante
Que aproxima a vida
Vidas simples de gente simples
Que aprecio e suspiro
Deixando pra lá
Todo e qualquer mal
Povo guerreiro
Que não pega o sombreiro
Porque pra uns é sofrimento
Mas pra eles
O valor é rural
Esqueço avenidas
Ruas e alamedas
A pressa sem porquê
E a loucura da capital
Lá, sou menino deslumbrado
Aqui, sou menino real
Entra parente, entra mais gente
Sai e volta sempre
No seu simplório “bom dia”
Até o seu riso do fim do dia
Até as suas rugas dizerem “tchau”
Mata adentro
Permeei caminho de cobra
Segui muito verde de sobra
E jogando conversa fora
No fim do papo
Graças à Deus não caiu a chuva
E nem subiu nenhum gordo sapo
Terra que acorda cedo
Que dorme cedo
Preenchendo seu dia
Que, pra mim
Domingo é todo dia
E pra eles é segunda-feira
Terra de feira, de venda
Terra de rede, de renda
Terra sem internet e sem celular
Mas de possível torniquete
Garrote e terra batida
De dia, calor quente
À noite, brisa e luar
Pedras, cachoeiras e rios
E pra pôr a cereja no bolo
Aqui só falta o mar
Brumado e Caitité
Tabuleiro e Itanajé
Cidades e vilas miúdas
Onde Nossa Senhora
Mostra sua fé
Terra batida
De gente já sofrida
Suas fortes linhas do rosto
São respostas porque estão de pé
Me retiro do meu caos
Para um retiro da minha paz
Até tenho saudade do mundo
Mas se ele acabou
Pra mim, tanto faz
Sou urbano e admiro concreto
Mas a beleza do umbuzeiro
Junto à de minha morena
Me fez dar valor ao vento
E neste meu pequeno convento
Me fiz menino e homem repleto
Terra de nuvens vespertinas
De casebres sem cortinas
Sem confetes, muito menos serpentinas
Nossa Senhora, abençõe meu alimento
Obrigado por me livrar do rude mundo
Muito obrigado por este livramento.

João Aranha

25/12/2012

Livramento de Nossa Senhora – Bahia – Brasil

Foto: João Aranha