CARTA AO JOHN

john lennon

John, John, John…
Olá!
Você não me conhece
Também nunca me conheceria
Talvez, quem sabe um dia…
Sou seu xará
Afinal, alguns também me chamam de John
Mas vim aqui pra dizer que
Pode ser uma bobagem
Mas senti uma necessidade de te escrever
Mesmo sabendo que você nunca leia isso
Ou, vai saber se já não está lendo enquanto escrevo…
Acredito em tudo…
Então, John…
Passei aqui pra dizer que, após sua morte
Há 35 anos que você se foi
No dia de hoje
Nada mudou…
Você sabe, né? Eu sei
Me sinto um idiota escrevendo pra ti
Mas me deu essa vontade estranha
Enfim…
Quando você estava no auge eu mal te conhecia
Aliás, eu nem tinha nascido
Mas, como sou músico
E mesmo antes de ser, bem antes dos meus 17
Já conhecia a sua banda
E já achava muito bacana
Hoje, eu acho a mais foda de todas, John
Mas voltando ao que eu queria te falar
É que nada mudou nesse planeta, John
Você pedia um mundo melhor
Um mundo de paz
Um mundo sem religião
Um mundo onde todos poderiam viver como um só
Unidos…
É, John…
You know…
Se antes de Cristo houve guerras violentas
E na era medieval, mais guerras sangrentas
Imagine você
Hoje
Imagine
Se pensarmos que o mundo se modernizou
E as pessoas têm mais consciência das coisas
Imagine, John
Pois é
Era de se esperar alguma melhora
Mas não…
Só piorou, John
Tem muita ganância aqui ainda
Muito desrespeito
Muito ódio
Muito orgulho
E muita ignorância, John
Todo mundo pede paz mas não tem paz interior
Imagine trabalhar a paz com o outro?
É John… tá foda, man…
Você pedia a paz
O mundo te achava um subversivo
E foi um maluco lá e tirou a sua vida
Para, talvez, descansar em paz…
Espero que esteja
Quer dizer, com certeza você está melhor que nós, John
Mas eu só passei pra te dizer também que
Anos depois, ou melhor, 35 anos depois
A gente vê que o que você pedia
Muitos pedem hoje
Eu acredito que tenha uma mudança sim
Mas hoje, não vejo perto
Talvez eu não veja nenhuma mudança também
Bom, passei só pra te dar um toque
E dizer que você era o cara
Era o cara que ninguém ouviu
Aliás, aproveitando,
Ainda bem que você não está aqui, John
Existe um tal de Facebook
A ideia dele é unir pessoas
Mas essa parada toda tem afastado umas e outras
Acredita nisso?
Comigo não aconteceu
Mas vejo muito isso por lá
Imagino você no Facebook, John
Você teria muitos likes
Muitos compartilhamentos
Mas muito te achariam um idiota
Um comunista
E com certeza te bloqueariam, John
Mas tudo bem
Você seria bloqueado por querer a paz
Mas muitos querem guerra, acredita?
Tem fanáticos religiosos que matam sem perdão
E nem é sobre religião somente, é uma questão de poder, de política
Vai vendo, John…
Política, politicagem, essas coisas…
Se na sua época a guerra era fria
Hoje, ela esquenta a cada dia
As pessoas brigam pelo poder, John
Power to the People, né?
Mas esse é outro poder, man
Tá tudo bagunçado
All we need is love, you know
É…tá foda, John…
Mas a gente vai caminhando, né?
Um dia a gente chega lá
Não te conheci pessoalmente
Mas quando você partiu eu já tinha meus 8 aninhos
E olha só, eu fui batizado nesse mesmo dia 8, John
Só que sete anos antes da sua partida…
Coincidência ou não, só quis falar da data
É que eu sou muito detalhista, sabe John?
Lembro também de uma música de um conterrâneo seu
Também é um John, o Elton…
Eu era criança e gostava muito de uma música dele
Uma que se chama “Empty Garden”
Era uma trilha de novela que eu ouvia muito
Ouvia muito vinil na minha infância e adolescência
Eu não sabia sobre o que a música falava
Só uns 30 anos depois descobri…
Ele tinha feito pra você, cara… pra você…
Pela sua ausência…
Eu sempre achei essa música bonita
Mas quando vi o contexto…
Cara, eu chorava feito criança… principalmente na parte em que ele fala:
“Hey, hey, Johnny… Can’t you come out to play in your empty garden…”
É linda essa música, John
Assim como todas as que você escreveu
Você fez parte de uma das melhores bandas do mundo, John
Pra mim é a melhor
Mas eu falo “uma das” porque no Facebook, aquele lance que eu te falei, alguns podem discordar… mas foda-se, né John? Eu acho e pronto!
Well… vou parar por aqui
Só queria te avisar que eu amo a sua banda
E me casei com uma mulher incrível que, além de amar a sua banda também, ela sabe muito mais do que eu…
É… eu sou um cara de sorte…
Como você também foi
Enfim, John
Era só isso
Passei aqui pra te dar esse alô
Ah… não fique chateado
Está chegando o Natal e, há tempos, fizeram uma versão de uma música sua
Que além de ficar muito ruim, fizeram outra ainda pior…
Então… é Natal, mas fique bem, eles não sabem o que fazem, brother…
Olhe pela gente, se puder
Estamos aqui na busca
Come together
Afinal, é o nosso exercício diário
Vou aqui tentando fazer o meu melhor
Eu só te agradeço, viu?
Pela sua luta
E pela sua música
Valeu, John
Fique em paz.

Um abraço,

John Spider

08/12/2015

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NASCER POETA

Ontem foi o Dia do Poeta
O dia de quem vive com poesia
Não fiz nenhum poema
Foi esta minha heresia

Hoje escrevo aqui
Para brindar que não sorri
Envelheci um dia
O poema que não pari

Ontem celebrado
Hoje recordado
Amanhã pensado
E todo dia
No coração fincado
De amor e dor suados

Choro, rio
Sinto, reflito
É o cerne que quase jaz
Ofício puro, franco, loquaz

É letrar o sentimento
É sentir o duro pranto
Cardíaco fomento
Borra a tinta, brota encanto

Poesia é todo dia
É sentí-la ao nosso lado
É esquecer odes torpes
Para estar ensimesmado

Contemplar mil horizontes
Regurgitar-se é a meta
É sorrir calado
É chorar sozinho
É quebrar sua janela
Para nascer
Poeta.

João Aranha

21/10/2015

EU QUERIA FAZER STAND UP COMEDY…

– Então, cara… eu queria fazer stand up comedy! Quer dizer, não só por querer fazer, mas porque dizem que eu levo jeito, entende? Dizem que eu sou engraçado, mas não contando uma piada, mesmo porque eu não sei contar mesmo, mas falam que sou engraçado contando histórias reais da minha vida, coisas do cotidiano, reflexões, análises de comportamento, essas coisas, entende? E ainda já disseram que quando eu conto coisas absurdas e fico nervoso eu fico mais engraçado ainda, acredita?
– Poxa, que bacana! E você gostaria?
– Ah, eu gostaria sim. É natural eu ficar falando coisas assim e tirando sarro, mas eu tiro sarro de mim também, o que acho fundamental para qualquer humorista. Rir de si mesmo é uma arte!
– Porra, mas por que não tenta, cara?
– Ah, sabe como é, né?
– O quê?
– Aquela merda do politicamente correto.
– Mas isso você tira de letra! Nem se preocupe com isso! Esse povo gosta é de encher o saco mesmo! É um bando de babaca que não tem o que fazer.
– É mas, se na publicidade, nas novelas e na vida real já existe o politicamente correto, imagina eu fazendo stand up? Vou ser preso no primeiro comentário por alguma ofensa em relação a algum tipo de pessoa ou comportamento humano… Você sabe, né?
– Que nada! O importante é saber fazer a piada. Sendo engraçado é o que vale, cara! E outra, o que poderia ser ofensivo hoje em dia? Pode falar o que quiser! Vai por mim! E se você for fazer mesmo, me convida que eu estarei lá na primeira fila, hein?
– Calma, não é simples assim… Eu preciso tomar cuidado ao fazer comentários que podem discriminar, ridicularizar ou ofender alguém…
– Nada! Fale o que você quiser! Eu estou curioso! Dá uma palinha pra mim, vai… Por favor… Em primeira mão, vai…
– Não… Eu fico com receio… A gente vai ficando velho e vai ficando cada vez mais cusão. A internet é outra coisa que ajuda de um lado mas, dependendo, fode com a gente. Pior que ser preconceituoso é ser mal interpretado, saca?
– Esquece isso! Nada me ofenderia! Isso é coisa de babaca!
– É nada.
– É sim.
– Então me diz… Eu posso fazer alguma piada em relação aos negros?
– Pode, ué!
– E se eu falar algo sobre mulher?
– Claro, man!
– E se eu falar sobre índio?
– Pode também.
– E se eu falar de mendigo?
– Claro que pode.
– E se eu falar de político?
– Nem precisa falar né? Óbvio que pode!
– E se for sobre evangélico?
– Pode, cara!
– E se for sobre judeu?
– Pode.
– E sobre muçulmano?
– Também.
– E se for católico?
– Também.
– Macumbeiro?
– Pode.
– E sobre gordo?
– Pode.
– E anorexia?
– Pode.
– E de careca?
– Pode.
– E gay?
– Pode.
– Travesti?
– Pode.
– Lésbica, bissexual?
– Pode.
– Pagodeiro?
– Pode.
– Funqueiro?
– Pode.
– Heavy Metal?
– Pode.
– Nordestino? Gaúcho?
– Pode.
– Deficiente físico?
– Pode.
– Idosos?
– Pode.
– Alzheimer, Parkinson?
– Pode.
– AVC?
– Pode.
– Aids?
– Pode.
– Autista, síndrome de down?
– Pode.
– Estupro?
– Pode.
– Machismo, feminismo?
– Pode.
– Rico, pobre?
– Pode.
– Militar?
– Pode.
– Nazismo?
– Pode.
– Turista?
– Pode.
– Estrangeiros?
– Pode.
– Prostituta?
– Pode.
– Traficante?
– Pode.
– Ladrão?
– Pode.
– Maconheiros?
– Pode.
– Casamento?
– Pode.
– Futebol?
– Pode.
– Bulling?
– Pode.
– Direita?
– Pode.
– Esquerda?
– Pode.
– Pessoas normais?
– Não.
– Não?
– Não, ué.
– Não posso falar de pessoas normais?
– Não, cara! Pessoas normais não, cara!
– E por que eu não posso falar de pessoas normais?
– Porque normais são normais. E pessoas normais não têm defeitos.
– Não têm defeitos?
– Não. E por serem normais, não teria como tirar sarro ou criar alguma piada baseado em pessoas normais. Portanto, não teria graça e seria, obviamente, uma ofensa.
– Ah é?
– É.
– E por quê?
– Porque o que é normal não tem erro. E se não tem erro, não tem como ser ridicularizado, entende? Qualquer coisa que depõe contra uma pessoa normal é uma ofensa, uma falta de respeito, compreendeu?
– Entendi. Perfeito.
– É isso.
– Sim. Entendi.
– Mas voltando… Viu como você pode falar de um monte de assunto sem ofender?
– Vi sim.
– E aí? Vai fazer seu stand up comedy agora?
– Vou não. Desisti.
– Ué… Desistiu? Por quê?
– Sabe aqueles babacas que criticam humoristas por qualquer coisinha mínima porque não têm a capacidade de encarar como humor, sempre acham que é com ele e sempre consideram que é uma ofensa, uma piada preconceituosa, apelativa, de mal gosto e que deveriam ser todos processados pela justiça?
– Sei.
– Então… uns tem razão.
– E os outros?
– Os outros são normais.

João Aranha

19/05/2015

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25 ANOS

Há exatos 25 anos
Fiz meu primeiro poema
Não ganhei dinheiro algum
Mas resolvi muito problema.

João Aranha

16/04/2015

O LÍNGUA

Era uma vez um substantivo
Ele nasceu com adjetivo
Viveu entre metáforas, eufemismos e orações
Sujeito simples
Trabalhou hiperbolicamente
Casou-se, do verbo amar
Adoecido, ficou sem predicados
Morreu pronome
Virou um artigo indefinido
Ponto final.

João Aranha

11/03/2015

CLARIDADE

 

 

 

 

 

 

 

 

Um momento único
Um gesto puro
Um presente pequenino
Que me fez esclarecer

O primeiro olhar
O primeiro grito
O primeiro choro
Que a vida se faz valer

O amor em sua labuta
Nas semanas de luta
Gera a flor diminuta
No seu claro nascer

No calor da mãe brotou
E ao velho e novo colo ficou
O pai feliz e todo sem jeito
A entregou ao materno leito

Ansiedade que vira alegria
Cria o sorriso bobo
No adulto tolo
Que nasce com a cria

Menininha de encanto
Na busca de qualquer canto
Escolhe o cantinho quente
Mas sabendo que já é gente

Sorri no natural reflexo
Deixando o casal perplexo
Quer descobrir seu novo mundo
Mergulhar a fundo
Seu mais novo universo
E entre a prosa e o verso
Vem mais um poeminha

No fim de tarde
Já veio conhecendo a noite
Mal sabendo que sua casa
Já era seu primeiro pernoite

A união de dois seres
Abriu caminho à nova semente
Bela e formosa filha
Faz o pai se sentir valente

Escolheu seu lugar, seus pais e sua casa
Veio como anjinho, voando, batendo asa

Deixou o ventre escuro
Para seguir sua pura luz
De trazer ao nosso lar
O contento que não para

O nascer que deixou meu ser
Com a certeza que a vida é linda
E que mesmo pequenininha
Mostra a felicidade que não se finda
Deixando-a mais pura
Mais leve
E muito mais clara.

João Aranha

16/12/2014

ELA

 

 

Ela cai
Ela vai
Ela vem
Ela foi
E se foi
Pro meu bem
Gota à gota
Ela bota água
E de bota em bota
Ela desbota
O que molha além
Ela aperta
Ela afina
Ela cessa
Ela alaga
Ela ultrapassa
Ela seca
Vem molhada pra beber
Vem molhada pra lavar
Vem molhada pra molhar
Gelada ou quente
Ela molha a gente
Às vezes ajuda
Às vezes atrapalha
Às vezes demora
Às vezes não para
Enche e esvazia
Tristeza ou alegria
Acolhe a enguia
No rio segue e vira guia
No mar não salgaria
Cai em pé
Corre deitado
Molha o coitado
Alimenta o gado
E ensopa o sapato
Fode com o dia
Mas é bom pra foder
Molha até foder
Pra foder no molhado
Envolve o apaixonado
Refresca o telhado
Atrasa ou adianta o lado
Antes do Sol casa o espanhol
Depois do Sol casa a viúva
Abraça a uva
E cai como uma luva
Eu te amo e te odeio
Ilustríssima senhora chuva.

João Aranha

15/01/2014

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ARCO-ÍRIS BRASIL

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O tempo está cinza
A economia está no vermelho
E o país ganha no mercado negro

A educação deu branco
A população está verde de fome
E a segurança sempre amarela

Tem mar longe do azul
Tem rosa homofóbico
Tem política cheia de laranja

Tem fúteis de sangue azul
Tem violeta sem água
Tem imprensa marrom

Tem gente que fica bege
Rosa para uns é choque
Vinho causa acidente
E o roxo de hematoma sofre

No velório, o lilás é flor
Jaz um país de amor
E no ocre profundo da terra
Nasce um país de dor

E no prisma de um futuro
O que mais se vê
É a furta cor.

João Aranha

06/06/2014

FIM

FIM

ALMA

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Não existe cara metade.
Existe uma outra face, que te preenche porque você se sente pela metade.

Não existe a metade da laranja.
Existe uma laranja inteira que faz você se sentir menos laranja.

Não existe sapato velho.
Existe outro pé que anda junto com você, com ou sem sapato.

Não existe a tampa da panela.
Existe uma panela de pressão que te deixa em depressão por não conseguir a metade da laranja, a cara metade e o sapato velho para colocar na panela e mexer com tudo, principalmente com o seu coração.

Esqueça a laranja, a cara, o sapato e a panela.

Quando você esquecer tudo isso, com certeza, vai aparecer aquela pessoa.

E quando ela aparecer, você verá que ela é, realmente, uma outra alma, completamente diferente, mas que se iguala nos sentimentos, uma alma que vai te entender, te respeitar, te acompanhar e te amar.

E quando ela chegar,

Por favor,

Faça a gentileza de se entregar.

 

João Aranha

10/02/2014

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POEMA CURTO

Poema
Eu curto
Eu curto poema curto.

João Aranha

15/01/2014

Posso?

Não
Não posso
Não posso dizer
Não posso pensar
Não posso fazer
Não posso fazer o que penso
Não posso pensar o que digo
Não posso dizer o que faço
Não
Não posso
Não posso negar
Negar o que posso
O que posso?
Posso?
Posso
Posso poder
Poder eu posso
Poder negar o poder
Negar o poder do não
Afirmar o poder do sim
Sim, eu posso
Sim, eu posso negar
Não, não posso afirmar
Sim e não
Eu posso
Afirmo que nego
Nego que afirmo
Posso
Posso o que vier
Posso quem vier
Posso quando puder
Posso onde for
Posso e não posso
Devo poder?
Dever pode?
Pode
Posso
E no fundo do poço
No poço do poder em que posso
Me afundo
Levanto
Pronto
Pronto para poder
Pronto para o poder
De poderar
De não ponderar
Com todo o poder que posso
Com todo o poder que peço
Me despeço
Porque sim
Porque não
Eu posso.

João Aranha

15/01/2014

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EU PEDI O QUÊ?

Imagem

Cliente
– Por favor, um café.

Atendente
– Puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Sim, senhor… Mas puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Mas puro ou com leite, senhor?

Cliente
– Escuta aqui, você é surdo?

Atendente
– Não, o senhor é que é surdo. Eu já ouvi. O senhor quer um café e eu perguntei se é puro ou com leite, entendeu?

Cliente
– Olha só… Vou te ajudar pela última vez… Eu quero um café!

Atendente
– Mas puro ou com leite, meu senhor?

Cliente
– Eu pedi com leite?

Atendente
– Não.

Cliente
– Então, se eu pedi um café é porque eu pedi um café, se eu pedisse café com leite eu pediria café com leite, entendeu? Então, se eu pedi um café, apenas, somente, e tão somente, por assim dizer, esse café é puro, entendeu, caralho?

Atendente
– Entendi…faz sentido…

Cliente
– Não, não faz sentido. Ele é O TOTAL SENTIDO! ENTENDEU?

Atendente
– Assim você me deixa sentido…

Cliente
– Ai meu Deus… Vem cá… Você entendeu o que eu disse? Entendeu agora porque eu estou puto da vida por causa de um simples café que era pra ser simples e puro, mas você, com seu “puro ou com leite” me deixa cada vez mais puto por não ter o mais puro que eu pedi?

Atendente
– Nossa… Entendi… Desculpe. O senhor tem razão…

Cliente
– Olha… me responde uma coisa… Essa perguntinha de merda que você faz, essa merda de “puro ou com leite” toda vez que alguém pede um café veio de quem? É de você? É você que criou essa perguntinha de merda ou é criação do seu chefe?

Atendente
– Então, na realidade, um pouco meu também, sabe? É que é pra agilizar o atendimento para o freguês! Assim, eu sei de antemão o que ele quer e já entrego certinho! Eu também acostumei, sabe? Mas foi meu chefe que deu essas ordens desde o dia em que eu cheguei aqui, há 5 anos. Como eu falei, ele disse que é pra agilizar o atendimento do freguês…

Cliente
– Ah é? Então, saiba o senhor e a merda do seu chefe que, ao invés de agilizar, você só prolonga esse seu atendimento de merda, porque se eu quero um café é porque eu quero um café, e se eu quero um café é porque o café é um café, simplesmente um café, um café simples, ou seja: um café PURO! E como eu já te falei, se eu quisesse um café com leite eu pediria um café com leite, ou seja, você não precisaria perguntar nada e já me entregaria o café que eu pedi, seja ele puro ou com leite, entendeu, meu rapaz?

Atendente
– Entendi… Tem razão… Agora entendi! Me desculpe… É que a gente acaba acostumando, sabe? Mas o senhor tem razão mesmo. Fim de papo, tá? Já vou servir o seu café… Puro, certo?

Cliente
– Ah, chega… Esquece… Esse papo me tirou a vontade do café… Agora vou querer outra coisa… Ah… me vê uma Coca?

Atendente
– Com gelo e limão?

João Aranha

11/07/2013

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MEU REINO POR 20 CENTAVOS

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Um absurdo
Um grito
Um fato

Outros absurdos
Outros gritos
Outros fatos

Vários absurdos
Vários fatos
Um só grito

Um passo à frente
Olhar pra frente
É brava gente

Deixar a poltrona de lado
Levantar a voz para o alto
Exigir a verdade de fato
E no ato
E sem boato
Pés brasileiros
Cobriram o asfalto

Faixas e cartazes
Indignação… catarses
Pobres oprimidos
Classe média revoltada
Burguesia calada

Vem pra rua
Seja sol, seja lua
Pinta a cara
Desbota o sistema
Sujeira no tapete
Topetes e colarinhos

Saúde na maca
Educação de castigo
Segurança presa
Transporte parado

Direitos amordaçados
Dignidade parca
Vergonha alheia
Hipocrisia em alta
Nação em baixa

A epiglote do povo
É o mote do novo

Por uma boa causa
Por inúmeras boas causas
A cidade parou
O estado assustou
O país acordou
Gigante pela própria natureza
Jazia a cor da tua bandeira

Abre o olho
Escova dente
Toma café
Vai à rua
Vai à guerra
Vai à luta
Luta do cerne natal
Pacífica briga
Ao governo letal

Voz de cansaço
Berro de descaso
Punho fechado de revolta

O país se faz de homens
O país se faz de livros
O país se faz do povo

Política, titica
Polititica
Corre atrás desesperado
Corre atrás do confinado
Corre atrás do continental finado
Mostra tua cara
Sai do hino do futebol
Bota o hino no coração
Vota a favor de uma nação

De verdade pura
De suór exaurido
De sangue pulsante
De alma lavada
Limpa a corja
Aspira o tapete verde

Parte todo e qualquer partido
Já partido há tempos
Agora parte do povo
Parte e reparte o pão
Hasteia a bandeira
Sem dar bobeira
Pra não lutar em vão

Agora faz teu gol de placa
Agora faz teu samba na graça
Porque agora é tua força em massa

Ele acordou
Nós acordamos
Eles perderam o sono

Vandalismo é no topo
Discursos no oco
Não ignore a nação

Solta teu grito
Aperta teu aflito
Levante tua mão

Agora é a nossa hora
Chega de pedir esmola
Pra defender nosso brasão

O que calou em décadas
Berrou aos déspotas
O que é nosso
O que é são

O povo acordou
O povo levantou
Agora acorda congresso
Corre atrás do teu retrocesso
E sana teu senado

Mostre-se em frente às câmeras
Mostre-se em frente à camara
Mostre tua rampa decadente
Porque agora o clima é quente
Queima burocracia
Com 3º grau na má vontade

Porque a voz é liberdade
Porque a voz é fraternidade
Porque a voz é igualdade
E depois da tua não destreza
Resolva e saia à francesa

Porque o país é nosso
E nós estamos bravos
E tudo isso começou
Com apenas
20 centavos.

João Aranha

27/06/2013

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BÚSSOLA MORTA

Não sei para onde vou
Não sei onde estou
Não sei o que sou

Não sei de onde vim
Não sei porque vim
Não sei o que há em mim

Não sei o que busco
Não sei se me ofusco
Não sei se sou brusco

Não faço questão
Não peço perdão
Não beijo o chão

Caminho alagado
Caminho infundado
Caminho sem fim

Escolho o que quero
Desperta meu sério
E espero sorrindo

O mistério do caminho
O caminho da rua
A rua do mistério

Não quero mais nada
Só quero meu tudo
Nem sei o que é meio

Entro no vazio
Saio do todo
Só sinto a metade

A luz não acende
A cruz me suspende
Calvário me sente

Me ponho a chorar
Me ponho a sorrir
Me ponho a me por

Tenho meta e me acabo
Acaba minha meta
Dou cabo de mim

Resido na procura
Resíduo de busca
Procuro meu fim

Não sei para que sirvo
Não sei para que vivo
Não sei se estarei vivo

Vivo para ver
Vivo para conhecer
Vivo para viver

Meu mote é seguir?
Meu mote é esperar?
Meu mote é mudar?

Tracejo amanhã
Desenho só hoje
Rabisquei o meu ontem

Vou embora daqui
Vou pra onde eu me vi
Vou sem norte
Morri.

João Aranha

10/06/2013

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