Arquivo da categoria: Crônicas

ELE FOI ÀS COMPRAS

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Ele foi ao supermercado. Precisava comprar alguns produtos que faltavam para si. Pegou dois quilos de solidariedade. Depois, pegou mais cinco quilos de tolerância, três sacos de disponibilidade e um pacote família cheio de respeito. Achou que ainda faltavam outros. Continuou…

Passou na gôndola de serenidade e já mandou ver uns 12 potinhos. Ainda gelados, levou 10 quilos de paciência pra descongelar com o tempo. Lembrou que estava com sede e logo foi pra seção de satisfação. Levou um pack de alívio, mais dois packs de tranquilidade, duas garrafas de sabedoria, um latão de calma e cinco latinhas de observação.

A ansiedade estava em promoção, mas ele não quis. Passou batido no corredor da inveja. Viu um “Leve 3 e Pague 2” de futilidade e deixou quieto, tanto que nem viu a liquidação de frescura logo ali ao lado.

Lembrou o que não podia faltar e foi correndo para o setor de bom senso. Chegou e já pegou vários sacos de discernimento, atenção e várias latinhas de generosidade. Achou que já estava bom, afinal, era a compra para o último mês do ano, mas queria usar muito no próximo ano e daria mais que o suficiente. Mesmo sabendo que ainda tinha, não esqueceu aquilo que o fez sair de casa compulsivamente: comprar dúzias de amor. Lotou um carrinho só com o seu vício.

Foi ao caixa e, antes de pagar, viu uma pequena embalagem de bom dia com 30 unidades. Pensou rápido e levou três caixas. No total, a conta deu apenas R$ Boas Intenções Reais e Sorrisos Centavos. Pagou tudo com força de vontade. A mocinha lhe entregou um troco 10 obrigados. Ao notarem que foi uma boa compra, a mesma mocinha do caixa o surpreendeu dizendo que ele foi premiado pela qualidade dos produtos e deu, de brinde, um simpático box de bom humor. Ele agradeceu e, com o brinde e o troco na mão, saiu sorrindo.

Ao sair pela rua, um caminhão parou de repente, bem ao seu lado. Desceram três caras fortões uniformizados com as palavras ignorância, ódio e arrogância. Cercaram-no ameaçando-o de morte e levaram toda a sua compra. Empurraram o pobre homem que ficou caído ao chão.

O caminhão saiu em alta velocidade e, por um descontrole do motorista, bateu no primeiro poste. O acidente foi tão grave que os três assaltantes vieram a falecer na hora. O pobre homem, ainda assustado, deixou as mercadorias no caminhão e voltou pra sua casa cabisbaixo.

Ao chegar em casa, ficou surpreso por não ter notado uma caixa de perseverança em sua sala que ganhara no Natal do ano passado, mas que ainda dava para usar, e sentiu-se melhor. Sentou-se no sofá e notou que tinha algo em seu bolso. Tirou para ver o que era e sorriu. Era um pedacinho de bênção que sempre andava com ele.

João Aranha

02/12/2016

 

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EDUARDO E MORO

Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas por essa nação? E quem irá dizer que não existe razão?

Eduardo abriu os cofres, mas não quis se entregar, ficou calado e viu que horas eram, enquanto Moro aparava o cavanhaque no outro canto da cidade como eles disseram

Eduardo e Moro um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se esquecer. Foi um carinha do partido do Eduardo que disse:

– Tem uma treta legal e a gente quer se divertir
– Treta estranha, com gente comunista, eu sou ilegal, não aguento mais propina

E o Moro riu, quis grampear um pouco mais sobre o dim-dim que ele tentava desviar. E o Eduardo, meio sonso, só pensava em ir pra câmara: – Se eu pago duas, eu vou me ferrar

Eduardo e Moro grampearam telefone, depois se confrontaram e decidiram acarear. O Eduardo contratou uma piriguete, mas o Moro queria ver o filme se queimar. Se encontraram então no Parque da Asa Norte, o Moro foi de moto e o Eduardo de Pagero. O Eduardo achou estranho e melhor não declarar, mas o juiz era bem contra os de vermelho

Eduardo e Moro eram nada parecidos, um era do tabelião, outro pagava uns dezesseis. Um vinha da advocacia e estudava o petrolão e ele ainda nas entrelinhas do PMDB. Ele erguia a bandeira, xingava os “do mal”, vândalos, militantes, até Caetano ele xingou. E o Eduardo protelava sua novela e manobrava liminar com aquele senador

Denunciava coisas sobre o Planalto Central, também quadrilha e corrupção. E o Eduardo ainda fazia o seu esquema “Suíça, emenda, Truste e indicação”. E mesmo com tudo decadente, veio mesmo, de repente uma vontade de prender. E os dois se criticavam todo dia e a polícia corria como tinha de ser

Eduardo e Moro fizeram delação, promotoria, CPI e peculato, e foram viajar. O Moro explicava pro Eduardo coisas sobre o réu, a cela e sua conta além mar

Ele aprendeu a romper, deixou a grana crescer e decidiu atrapalhar. E o Moro deflagrou no mesmo mês e rastreou um outro patamar

E os dois se alfinetaram juntos e também brigaram juntos, muitas vezes depois. E todo mundo diz que ele investiga a ex, o vice e o testa, ninguém dá nome aos bois

Construíram um sítio uns dois anos atrás, mais ou menos quando os presos vieram. Descobriram a grana e seguraram o ilegal, a barra mais pesada que tiveram

Eduardo e Moro voltaram pra Brasília e aquela inimizade ainda piora no saguão. Só que nessas férias não vão viajar, porque a mulher do Eduardo correu pra liquidação

E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas por essa nação? E quem irá dizer que não existe razão?

João Aranha

20/10/2016

CASAPP

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– Amor?
– Oi, amor.
– Pode falar? Tá por aí ou tá ocupado?
– Tava mandando um mail agora, mas diga, amor!
– Preciso falar com você…
– Fala.
– Faz tempo que a gente não faz sexo…
– Eu sei, amor. Sinto falta também, mas com essa correria, mal dá tempo pra gente curtir junto, né?
– É… mas… Poxa, toda vez você fica nesse whatsapp… mal olha pra mim quando chega em casa…
– Eu sei, mas você também fica no whatsapp direto que eu sei…
– Sim, eu fico. Mas na maioria das vezes estou falando com você!
– E eu também! Vira e mexe você me chama no whats!
– Também, você fica o dia inteiro fora, eu tenho saudades…
– Eu também tenho uma saudade louca, mas meu trabalho está acabando comigo, e tenho cliente no whatsapp, ou seja, fico mais tempo ainda que o necessário!Só queria que você me entendesse um pouco, sabe?
– Eu sei, mas também queria que você visse o meu lado…
– Eu vejo, amor. E sei que a gente precisa parar um pouco com essa loucura viciante dessa merda de celular…
– Assim espero…
– Vamos fazer o seguinte? Amanhã à noite voltamos a trepar bem gostoso, porque amanhã cedo eu preciso visitar cliente fora da cidade, tenho que acordar muito mais cedo…
– Tá… Ok… Promete?
– Prometo! Vamos voltar à vida que a gente tinha antes de instalar essa porra!
– Ai, amor! Você é lindo! Eu te amo.
– Também te amo, delícia!
– Gostoso!
– Gostosa!
– Amor, obrigado por me ouvir, tá? Não quero te atrapalhar aí. Pode desligar.
– Ô, amor… Sou todo ouvidos. Te amo muito.
– Só mais uma coisa…
– Diga, meu amor.
– Por favor, tem como você pegar essa coberta aí, do lado do criado mudo?
– Essa aqui?
– Não, a de baixo. Passa pra mim?
– Pronto.
– Obrigada, amor.
– Imagina…
– Boa noite. Te amo.
– Boa noite, amor. Te amo também.
 
João Aranha
 
08/06/2016
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ONDE FICA A SANTA CASA?

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Semana passada, após deixar a filha na escolinha e indo ao trabalho pelo trajeto embaixo do Minhocão, um casal de idosos me parou perguntando onde ficava a Santa Casa. Eu, com a cabeça recheada de preocupações diversas, parei para olhar ao redor, afinal, como estava bem próximo dali e justamente este cidadão aqui passou o último fim de semana no recinto citado, estava bem fácil de indicar. Confiante, falei:

– Os senhores pegam esta rua aqui, a rua Santa Isabel, esta aqui atrás, virem à esquerda que sai direto na Santa Casa, cai bem em frente.

O simpático casal de velhinhos agradeceu e segui o seu certeiro destino. Continuei a caminhar me sentindo aliviado por ajudar, pois se eu não fosse publicitário e ator, eu trabalharia em balcão de informações ou seria taxista, pois gosto de informar caminhos para quem não sabe, ainda mais porque respeito e tenho apreço por velhinhos fofinhos, ainda mais quando estão vulneráveis na busca de algum remédio ou um lugar para se tratar de algo que eu não faço ideia. Então, no meu pensamento de ser humano realizado em ter feito a boa ação do dia, pensei sozinho de como era bom informar certinho o lugar que queriam saber, e bom saber que a indicação era fácil, era só seguir a rua Santa Isabel à esquerda e seguir ret… CARALHO!!! JOÃO, SEU IDIOTA!!! NÃO É PRA ESQUERDA, É PRA DIREITA, ELES VÃO PARAR NA PRAÇA DA REPÚBLICA, E LÁ NÃO TEM SANTA CASA, MUITO MENOS SANTA!!! E lá vai este ser desesperado correndo e já suando num frio de 16 graus pra alcançar o famigerado casal de avançada idade que já tinha sumido do mapa. Dobrei a esquina naquele sentido indicado – e bem errado – e cheguei como se estivesse sofrendo um infarto do miocárdio ali mesmo, quando disse:

– Desculpem!!! Me desculpem!!! Falei errado! É no outro sentido… É a mesma rua, mas para a direita! Me desculpem, confundi…

Os idosos agradeceram e sorriram aliviados dizendo que não conheciam nada dali. Pedi que me acompanhassem, pois eu voltaria até à mesma esquina com eles e continuei:

– É ali! Só atravessar essa avenida e seguir essa rua. Estão vendo as árvores ali? É bem em frente à Santa Casa, logo ali.

Agradeceram novamente e seguiram o destino. E eu, no frio de 16 graus, parecia suar em um pós-febre de 41 graus, mas senti um alívio em consertar meu erro e pensar que os velhinhos queridos estavam a salvo.

Moral da história I: não importa se é esquerda ou direita, ajude quem precisa.

Moral da história II: não siga seu caminho certo após indicar o caminho errado, volte pelo mesmo caminho anterior, entre no caminho errado, indique o caminho certo e siga o seu caminho.

Moral da história III: evite se preocupar para não preocupar os outros.

 

João Aranha

10/05/2016

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RAFAEL

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Domingo agora, começo da noite, estava eu tomando minha cerveja em um boteco no centro (que sempre passo em frente e está tocando clássicos do rock’n roll mas, neste dia, estava tocando aqueles sertanejos açucaradamente alegres, enfim…). Como não tinha uma mesa disponível, coloquei a ampola da cevada em cima de uma espécie de parapeito do bar enquanto degustava o suco de lúpulos e leveduras em pé quando noto alguém me chamar ao sentir um cutucar nos meus ombros. Olho para trás e vejo um garoto sentado no mesmo parapeito que serviu de mesa. A partir deste momento, seguimos com o diálogo:
– Oi!
– Oi!
– Você é músico?
– Sou.
– Ah…
– Mas por que você me perguntou isso? Eu tenho cara de músico?
– Tem sim.
– Que legal! Eu sou músico, mas não toco profissionalmente.
– Como assim?
– Eu tenho outro trabalho.
– Porquê?
– Porque a vida me levou para outro caminho. Eu tenho outro trabalho. Eu sou publicitário.
– O que é isso?
– Publicitário?
– É.
– Então… sabe o que é propaganda?
– Não.
– Sabe quando você vê televisão?
– Sim.
– E sabe quando você está assistindo um programa na TV e vem o intervalo?
– Sei.
– Então, quando vem o intervalo, não vem os comerciais?
– Aham…
– Então, eu faço os comerciais. Eu crio os comerciais (mal sabe ele que, atualmente, meus jobs não passam de um e-mail marketing…)
– Ah…entendi.
– Quantos anos você tem?
– 6. E você?
– Eu tenho 43.
– Nossa… é muito…
– É… sou bem mais velho… Mas vem cá…O que você quer ser quando crescer?
– Músico.
– Olha, que legal! Mas que tipo de música você gosta?
– Não sei…
– Mas não tem nenhum tipo de música que você mais gosta?
– Não.
– Ok. Qual o seu nome?
– Rafael. E você?
– João.
E assim, o garoto seguiu a brincar no boteco (sim, além dele tinham várias crianças brincando por ser aniversário de alguém que estava lá). Continuei minha cerveja. Ao terminar, eu queria dar um tchau para o pequeno Rafael antes de ir embora, mas não o via. Foi quando, após pagar no caixa, ele surgiu e disse:
– Tchau!
– Tchau, Rafael!
Passou mais um tempo, pedi uma latinha, afinal, estava chovendo e fiquei preso no boteco. E assim, terminando a latinha, passa o garoto Rafael pra lá e pra cá brincando com as outras crianças enlouquecidas por correr de um lado para o outro. Enquanto observava o corre-corre, o pequeninho “Rafa” vem ao meu encontro e, com seus bracinhos pequenos, me abraça com muito carinho, daquele jeitinho de criança que abraça suas pernas porque não alcança suas costas, e diz novamente:
– Tchau!
– Tchau, Rafael! Olha, vem cá! Vou te falar uma coisa… Eu sou músico, mas sou do rock, do jazz e da MPB. Não sei que tipo de som você gosta, mas não importa, tá? O que você quiser tocar, toque, viu? Se você quer ser músico, faça isso! Nunca pare de tocar, seja o que for! Vai em frente!
– Tá…
– Tchau, Rafael!
– Tchau!

João Aranha

24/02/2016

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O BOTÃO

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Outro dia eu fui tomar café numa tradicional cafeteria em um shopping. Chegando lá, peço um pedaço de bolo (daqueles secos, sem glacê, sem glamour, que pra mim é bom demais) e um café. Porém, sempre peço o café depois pois gosto de tomar por último, sendo assim, pedi somente o bolo. Sentei na confortável cadeira do ambiente também confortável e aconchegante e, por este mesmo motivo, existe um botão na mesa para evitar chamar as atendentes falando alto, gritando, ou acenando feito um manobrista de aeroporto. Eu já conhecia este botãozinho, pois frequento cafés desde os tempos dos barões deles mesmos (nem tanto tempo assim, ok), mas naquele momento tinha esquecido. Foi quando fui levantar a mão pra chamar a atendente quando, salvo pelo olhar, notei o botãozinho ali, esperando para ser utilizado e, assim, manter a tranquilidade sonora do local. Também notei que a mocinha que me atendeu anteriormente tinha sumido do recinto, pois tinha entrado para o fundo da loja. Então, apertei o famigerado vocativo de garçonetes e esperei. Um segundo depois de acionado, a moça do caixa, percebendo que a atendente estava lá dentro, grita em bom som:
– Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiingrideeeeeeeeeeeee!!!!!!!!!!!!!
Moral da história:
Pra que usar tecnologia avançada se algumas mentes não avançam nunca?

João Aranha

17/02/2016

 

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EU QUERIA FAZER STAND UP COMEDY…

– Então, cara… eu queria fazer stand up comedy! Quer dizer, não só por querer fazer, mas porque dizem que eu levo jeito, entende? Dizem que eu sou engraçado, mas não contando uma piada, mesmo porque eu não sei contar mesmo, mas falam que sou engraçado contando histórias reais da minha vida, coisas do cotidiano, reflexões, análises de comportamento, essas coisas, entende? E ainda já disseram que quando eu conto coisas absurdas e fico nervoso eu fico mais engraçado ainda, acredita?
– Poxa, que bacana! E você gostaria?
– Ah, eu gostaria sim. É natural eu ficar falando coisas assim e tirando sarro, mas eu tiro sarro de mim também, o que acho fundamental para qualquer humorista. Rir de si mesmo é uma arte!
– Porra, mas por que não tenta, cara?
– Ah, sabe como é, né?
– O quê?
– Aquela merda do politicamente correto.
– Mas isso você tira de letra! Nem se preocupe com isso! Esse povo gosta é de encher o saco mesmo! É um bando de babaca que não tem o que fazer.
– É mas, se na publicidade, nas novelas e na vida real já existe o politicamente correto, imagina eu fazendo stand up? Vou ser preso no primeiro comentário por alguma ofensa em relação a algum tipo de pessoa ou comportamento humano… Você sabe, né?
– Que nada! O importante é saber fazer a piada. Sendo engraçado é o que vale, cara! E outra, o que poderia ser ofensivo hoje em dia? Pode falar o que quiser! Vai por mim! E se você for fazer mesmo, me convida que eu estarei lá na primeira fila, hein?
– Calma, não é simples assim… Eu preciso tomar cuidado ao fazer comentários que podem discriminar, ridicularizar ou ofender alguém…
– Nada! Fale o que você quiser! Eu estou curioso! Dá uma palinha pra mim, vai… Por favor… Em primeira mão, vai…
– Não… Eu fico com receio… A gente vai ficando velho e vai ficando cada vez mais cusão. A internet é outra coisa que ajuda de um lado mas, dependendo, fode com a gente. Pior que ser preconceituoso é ser mal interpretado, saca?
– Esquece isso! Nada me ofenderia! Isso é coisa de babaca!
– É nada.
– É sim.
– Então me diz… Eu posso fazer alguma piada em relação aos negros?
– Pode, ué!
– E se eu falar algo sobre mulher?
– Claro, man!
– E se eu falar sobre índio?
– Pode também.
– E se eu falar de mendigo?
– Claro que pode.
– E se eu falar de político?
– Nem precisa falar né? Óbvio que pode!
– E se for sobre evangélico?
– Pode, cara!
– E se for sobre judeu?
– Pode.
– E sobre muçulmano?
– Também.
– E se for católico?
– Também.
– Macumbeiro?
– Pode.
– E sobre gordo?
– Pode.
– E anorexia?
– Pode.
– E de careca?
– Pode.
– E gay?
– Pode.
– Travesti?
– Pode.
– Lésbica, bissexual?
– Pode.
– Pagodeiro?
– Pode.
– Funqueiro?
– Pode.
– Heavy Metal?
– Pode.
– Nordestino? Gaúcho?
– Pode.
– Deficiente físico?
– Pode.
– Idosos?
– Pode.
– Alzheimer, Parkinson?
– Pode.
– AVC?
– Pode.
– Aids?
– Pode.
– Autista, síndrome de down?
– Pode.
– Estupro?
– Pode.
– Machismo, feminismo?
– Pode.
– Rico, pobre?
– Pode.
– Militar?
– Pode.
– Nazismo?
– Pode.
– Turista?
– Pode.
– Estrangeiros?
– Pode.
– Prostituta?
– Pode.
– Traficante?
– Pode.
– Ladrão?
– Pode.
– Maconheiros?
– Pode.
– Casamento?
– Pode.
– Futebol?
– Pode.
– Bulling?
– Pode.
– Direita?
– Pode.
– Esquerda?
– Pode.
– Pessoas normais?
– Não.
– Não?
– Não, ué.
– Não posso falar de pessoas normais?
– Não, cara! Pessoas normais não, cara!
– E por que eu não posso falar de pessoas normais?
– Porque normais são normais. E pessoas normais não têm defeitos.
– Não têm defeitos?
– Não. E por serem normais, não teria como tirar sarro ou criar alguma piada baseado em pessoas normais. Portanto, não teria graça e seria, obviamente, uma ofensa.
– Ah é?
– É.
– E por quê?
– Porque o que é normal não tem erro. E se não tem erro, não tem como ser ridicularizado, entende? Qualquer coisa que depõe contra uma pessoa normal é uma ofensa, uma falta de respeito, compreendeu?
– Entendi. Perfeito.
– É isso.
– Sim. Entendi.
– Mas voltando… Viu como você pode falar de um monte de assunto sem ofender?
– Vi sim.
– E aí? Vai fazer seu stand up comedy agora?
– Vou não. Desisti.
– Ué… Desistiu? Por quê?
– Sabe aqueles babacas que criticam humoristas por qualquer coisinha mínima porque não têm a capacidade de encarar como humor, sempre acham que é com ele e sempre consideram que é uma ofensa, uma piada preconceituosa, apelativa, de mal gosto e que deveriam ser todos processados pela justiça?
– Sei.
– Então… uns tem razão.
– E os outros?
– Os outros são normais.

João Aranha

19/05/2015

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EU PEDI O QUÊ?

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Cliente
– Por favor, um café.

Atendente
– Puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Sim, senhor… Mas puro ou com leite?

Cliente
– Eu pedi o quê?

Atendente
– Um café.

Cliente
– Então, eu quero um café.

Atendente
– Mas puro ou com leite, senhor?

Cliente
– Escuta aqui, você é surdo?

Atendente
– Não, o senhor é que é surdo. Eu já ouvi. O senhor quer um café e eu perguntei se é puro ou com leite, entendeu?

Cliente
– Olha só… Vou te ajudar pela última vez… Eu quero um café!

Atendente
– Mas puro ou com leite, meu senhor?

Cliente
– Eu pedi com leite?

Atendente
– Não.

Cliente
– Então, se eu pedi um café é porque eu pedi um café, se eu pedisse café com leite eu pediria café com leite, entendeu? Então, se eu pedi um café, apenas, somente, e tão somente, por assim dizer, esse café é puro, entendeu, caralho?

Atendente
– Entendi…faz sentido…

Cliente
– Não, não faz sentido. Ele é O TOTAL SENTIDO! ENTENDEU?

Atendente
– Assim você me deixa sentido…

Cliente
– Ai meu Deus… Vem cá… Você entendeu o que eu disse? Entendeu agora porque eu estou puto da vida por causa de um simples café que era pra ser simples e puro, mas você, com seu “puro ou com leite” me deixa cada vez mais puto por não ter o mais puro que eu pedi?

Atendente
– Nossa… Entendi… Desculpe. O senhor tem razão…

Cliente
– Olha… me responde uma coisa… Essa perguntinha de merda que você faz, essa merda de “puro ou com leite” toda vez que alguém pede um café veio de quem? É de você? É você que criou essa perguntinha de merda ou é criação do seu chefe?

Atendente
– Então, na realidade, um pouco meu também, sabe? É que é pra agilizar o atendimento para o freguês! Assim, eu sei de antemão o que ele quer e já entrego certinho! Eu também acostumei, sabe? Mas foi meu chefe que deu essas ordens desde o dia em que eu cheguei aqui, há 5 anos. Como eu falei, ele disse que é pra agilizar o atendimento do freguês…

Cliente
– Ah é? Então, saiba o senhor e a merda do seu chefe que, ao invés de agilizar, você só prolonga esse seu atendimento de merda, porque se eu quero um café é porque eu quero um café, e se eu quero um café é porque o café é um café, simplesmente um café, um café simples, ou seja: um café PURO! E como eu já te falei, se eu quisesse um café com leite eu pediria um café com leite, ou seja, você não precisaria perguntar nada e já me entregaria o café que eu pedi, seja ele puro ou com leite, entendeu, meu rapaz?

Atendente
– Entendi… Tem razão… Agora entendi! Me desculpe… É que a gente acaba acostumando, sabe? Mas o senhor tem razão mesmo. Fim de papo, tá? Já vou servir o seu café… Puro, certo?

Cliente
– Ah, chega… Esquece… Esse papo me tirou a vontade do café… Agora vou querer outra coisa… Ah… me vê uma Coca?

Atendente
– Com gelo e limão?

João Aranha

11/07/2013

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Velhice

O tempo passa. Sim, o tempo passa. E com ele, vamos juntos, sem ver o tempo, sem vê-lo passar. O tempo passa e nós, mesmo sabendo, não sabemos quando o tempo nos dirá que ele veio, mas sabemos que um dia ele virá. Virá de uma forma branda, é claro, afinal, nunca contamos os anos, meses, dias, horas e segundos, mas, a cada segundo que passa, passa-se o tempo e nossa vida vai caminhando até chegar o dia, o dia da nossa velhice. Velhice que vem, velhice que vai, mas todas, sem exceção, vêm, ou melhor, todas elas vêm se assim o destino permitir que venha antes de desaparecermos do mapa, seja ele qual for. A velhice vem e toda a nossa experiência também. As rugas surgem na face, nas mãos, no pescoço e pelo resto do corpo. Os cabelos brancos apontam levemente, outros abruptamente, mas apontam no meio dos outros fios negros, vermelhos, louros ou de quaisquer cores, eles apontam a hora que está passando. A força dos músculos diminui, a memória começa a falhar, para alguns permanecem lúcidas, para outros, ela some como um todo, os movimentos dos nossos membros ficam lentos, o raciocínio um pouco na mesma velocidade, os olhos perdem aquela visão nítida de tempos atrás, o coração fica mais fraco, os órgãos sexuais apresentam suas falhas hormonais, o desejo do sexo não grita como nos bons tempos de outrora, os dentes podem ser substituídos pelas famosas dentaduras, os pêlos vão sumindo conforme o passo lento dos pés, que ora incham, ora se cansam com facilidade e outros órgãos do corpo se prontificam a mostrar que não estão tão bem como antes. Em meio às rápidas, ou não, transformações inevitáveis do corpo, vem a juventude tão serelepe como nunca vista, é claro. Toda a mudança dos velhos vem simultaneamente com a jovialidade dos seres com menos de 20 anos. A vitalidade dos adolescentes e jovens adultos cresce e floresce de forma única, mágica e sadia, porém, e infelizmente, o sadio de tais pessoas não floresce tanto quanto os corpos respectivos, como a educação e o respeito. O tempo passa para os velhos e, de tempo em tempo, a educação fica mais rara, ou, usando mais um eufemismo, alguns jovens não mudam. Os lugares reservados para os idosos nos transportes públicos, nas filas nos bancos, a prioridade que não é priorizada vai se esvaindo da sociedade. Outro dia, eu mesmo ajudei uma senhora bem idosa que, acompanhada aos braços de sua mãe, também já com certa idade, pisou em falso e caiu com o rosto no chão da rua. Eu, que estava parado, fumando meu cigarro e observando o simples passar das pessoas, notei a queda e, prontamente, corri para ajudar a pobre senhora. Corri tão rápido que se fosse mais rápido a senhora nem tinha caído. Sem exageros, a senhora acabara de cair e eu já estava lá, há uns 3 metros de distância de onde eu estava, levantando a senhora fraquinha, junto com sua mãe, que agradecia junto com a senhorinha. Feliz fiquei ao ver que nada de mal tinha ocorrido e que, junto com seu agradecimento, vi o sorriso da senhorinha simpática, se confortando com a ajuda e aliviada por não ter nenhum arranhão aparente nem dores instantâneas. Assim, prosseguiu seu caminhar com sua mãe e eu, levemente assustado, fui aliviando meu desespero durante a corrida. Assim que sumiram do cenário, meu ser, também prontamente, aliviado ficou e, ao mesmo tempo, me veio o pensamento: quantos jovens fariam determinada tarefa? Talvez todos, talvez muitos, mas, não sou super-herói, nem serei e nunca quis ser, mas me arrisco em dizer que, talvez, pelo meu desabafo anterior, poucos fariam. Digo isso porque, o que vejo, a cada dia, é o desrespeito para com os idosos, a falta de atenção e o simples tratar, verbal ou gestual com os bons velhinhos deste país e, por que não, do mundo? Vejo moleques imberbes ouvindo seus MP3 no ouvido e fingindo não ver idosos querendo se sentar nos bancos dos ônibus, vejo ainda vários que nem sabem o que é trabalhar, fingirem dormir no mesmo banco onde deveriam se sentar tais idosos. Eu fico triste, ou melhor, sinto a raiva que talvez alguns idosos nem sintam por aceitarem de alguma forma a negligência de muitos. Enfim, e por fim, sinto que tais velhinhos são mais jovens que muitos jovens, pois ainda têm a vitalidade do viver, do estar vivo e sobrevivendo tantas injustiças sociais e físicas por este mundo afora e, por assim dizer, vejo o caráter ranzinza dos jovens que, muito antes de sua hora, já o fazem. Tenho pena dos jovens. Tenho pena destes jovens que, em sua velhice, podem xingar todos os dias os jovens de futura data e mais pena sinto da memória que alguns podem não ter de lembrarem que, um dia, ou vários, ou todos os dias, ele não ajudou ele mesmo no futuro.

22/03/2011

João Aranha

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Viva o Verão!

Viva o verão!
Viva!
Viva o suór do verão que me deixa prostituto só de pensar no exagero que ele traz consigo!
Calma, leitores calorentos, eu não odeio o verão. Claro que não. Eu gosto dele, contanto que ele venha, sempre, com moderação. Por assim dizer, viva a merda que é o verão em lugar errado. Explico.
Gisele Bündchen, em recente filme publicitário, dizia: “O verão é a melhor estação do ano”. Pausa, João. Pausa. Respira fundo. Agora vai: AONDE QUE O VERÃO É A MELHOR ESTAÇÃO DO ANO? Ela diz isso. Lógico. Ela tem motorista particular, tem ar-condicionado, tem praia quando quiser, tem piscina, ofurôs e mais quaisquer acessórios para se refrescar no verão que, por assim dizer, pra ela, nunca é sentido, mas sim, bem curtido. É claro que ela diz isso. Ela por acaso pega o Socorro no Terminal Bandeira até o Largo 13 esmagada por dezenas de pessoas suadas e coladas ao seu corpo? Ela anda pela Faria Lima, pela 25 de março, pela Teodoro Sampaio embaixo de 38 graus calorentos em demasia fazendo a testa cair de tanto suór, testa que surge de uma outra crosta na própria testa fazendo uma segunda testa? Então, tá. Assim eu também amo o verão, e por isso venho aqui desabafar diante o bafo quente que ele insiste em trazer para nos molharmos de pura sudorese descabida sem que a água exigida sequer se apresente, ou melhor, quando vem a água, esta sim, vem em demasia, molhando tudo, alagando tudo, enchendo tudo e acabando com a vida de diversas (para não dizer milhares) pessoas dentro da capital paulista. E pra não dizer só da capital, diria que, cidades que não têm praia ou alguém que não tem piscina em sua casa na cidade, definitivamente, não podem ter o verão citado pela modelo. É claro que é um filme publicitário, não a culpo, mas, reflitam a frase proferida. Não tem como aceitar um calor de 38 graus na sua cabeça durante o dia e, quando vem uma chuvinha para acalmar, vem 500 bilhões de litros que não param mais de cair por sobre as nossas cabeças, telhados, cabeças pouca telha e cabeças de pessoas que nem telhado tem, enfim. Aliás, o ser humano é um ser engraçado. Quando esquenta demais, ele precisa se refrescar com algo gelado. Quando esfria demais, ele precisa de algo para se aquecer. Somos uns idiotas. Talvez eu seja o maior deles, só de vir aqui perder meu tempo escrevendo uma bobagem como esse texto aqui, mas enfim, era só um manifesto para dizer que, verão não é para São Paulo. Verão é para curtir na praia, no campo ou na piscina. Verão na Cardeal Arco verde, na Consolação, na Heitor Penteado, no busão, nas ruas, avenidas, túneis, passarelas, viadutos, esquinas, escadas, ladeiras, corredores e afins, enfim, não é bem-vindo.
Sei que sou chato, mas o que mais me irrita é o povo dizendo pelas ruas, assim que o astro-rei resolve dar as caras após São Pedro deixar o registro aberto por dias inteiros: “Ah, o sol, o verão, ai que delícia!”. Ai que merda, isso sim. Eu gosto de mulheres com vestido, mas não uso vestido, entendem? Eu não fico com minhas partes íntimas totalmente ventiladas como as encantadoras, delicadas e charmosas mulheres ficam. Mal saio do banho e quero entrar de novo. Aí sempre vem outro herdeiro de meretriz dizendo a velha máxima: “Mas banho quente no verão é pior…” Não adianta, água quente, morna, fria, gelada, ou “glacial station plus master Norway gélida blasé”, não adianta. Você sai do banheiro e, ao sair de casa (lembrem-se, eu não tenho motorista com ar-condicionado no carro, ok?), já se inicia o processo de nascimento da primeira gota de suór que se prolifera em micro segundos fazendo as costas sentirem um córrego salgado querendo ir de encontro a outro canal protegido. A bolsa escrotal se encontra abaixo dos joelhos, testas duplicadas por crostas, pescoço grudando, mãos sujas só pelo fato de estar calor, todas as articulações sendo coladas, e por aí vai… Viva esse verão que os bundas-lelês adoram e insistem em dizer que é uma maravilha. É uma maravilha sim, mas não em São Paulo. Suór tem de vir durante o sexo, e não antes mesmo de xavecar. O bacana é se aquecer até explodir e não chegar pingando antes do prazer maior. A não ser que seja na piscina, na praia, no ofurô, mas não na Paulista, em Pirituba, no ponto da Rebouças, onde se espera, entre um zig-zag de ônibus, um mínimo de zig-zag de um vento que não existe.
Isso sem falar nos mosquitinhos adoráveis que entram nas narinas sem avisar, sem passsar o crachá na catraca. Sem falar das borboletinhas eufóricas que não podem ver luz que se abundam todas fogosas, até na televisão e monitores de computador é local ideal para aquecer o ânus ou a piriquita da invertebrada baladeira. Sem falar dos pernilongos vampirescos insistentes por sangue ao verem janelas abertas e corpos dormentes sem lençol. Sem falar nas simpáticas criaturas das trevas abomináveis, as baratas grotescas e cascudas amarronzadas vindas em corridas vis, com suas pressas que infernizam nossas vidas, nossas casas, nossas almas, isso quando não vêm pelos ares… Ah… viva o verão! Viva a melhor estação do ano!
Me desculpem, pessoas, eu gosto do verão. Gosto se ele não viesse com esses minúsculos descontentamentos. Sou mais o delicioso inverno, onde hibernarei no cobertor que não gruda, no sexo delicioso e mais quente, na vida com o suór necessário de cada dia, e não com o suór gratuito, sem o mínimo esforço.
O aquecimento é global. O sofrimento é inevitável.
E tudo pode piorar.
Vocês verão.

PS) Me desculpem. Escrevi isso no calor do momento.

João Aranha

21/12/10

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Comic Sans

Eles são assim, balançam seus crachás pomposos mostrando o nome da empresa, demoram na fila do self service escolhendo milhões de arvorezinhas e leguminosos para deixar o prato bem verde junto ao pé de frango molhado por três linhas de azeite das inúmeras garrafas dispostas diante dos pratos. Eles são assim, escolhem a coca zero dos sonhos mas não abortam a sobremesa, esta, sempre ao lado, e quando o clima está quente, um sorvetinho é sugado sem ao menos retirar a embalagem molhada e colada no mesmo. Eles são assim, falam de negócios, falam de taxas, falam sobre o chefe que não sabe trabalhar, falam das viagens do fim de semana, eles são daqueles que viagem significa praia, Disney, Orlando ou Miami. Eles são daqueles que amam o verão e que o frio só atrapalha. Eles são assim, eles adoram desktops com imagens de praias paradisíacas, eles adoram a plenitude do não fazer nada, apenas sombra e água fresca, produzir só das 8 às 6 da tarde, porque logo depois tem o happy hour da firma, porque as boazudas que falam sobre os mesmos assuntos estarão lá. Eles são assim, sorriem e falam alto sobre empresas, negócios, taxas, porcentagens, tarifas e serviços, mas falam de arte também, é claro. Falam da peça engraçadíssima que viram no sábado, aquela que tinha uma atriz global, que era gostosa, mas que manda muito bem, que adoram teatro mas nunca foram aos guetos longínquos do sucesso, onde jazem atores anônimos que dão o sangue para interpretar sem ao menos serem reconhecidos na rua. Eles falam de arte, mas não de drama, pois eles são assim, drama é triste, ninguém merece ver, dizem o famigerado “triste já basta a vida”, assim, preferem rir do que chorar, afinal, eles são assim, são os mesmos que não podem ouvir uma música clássica e logo soltam o seu brado retumbante “essa música dá sono” e emendam com o repetitivo, insistente e pobre “toca uma mais agitada?”, pois é… eles são assim. São daqueles que também amam cinema, claro, eles são daqueles que amam cinema porque gostam de rir apenas, porque drama “basta a vida”, mas claro, aceitam dramas sim, mas só se forem americanos, porque cinema pra eles só americano, afinal, eles são assim, gostam de filmes americanos porque têm explosões, cenas picantes, humor fácil e final extremamente feliz, por que não entendem o que é previsível, ou até entendem, mas preferem assim, porque dizem o exaustivo “ninguém merece”, porque “de triste já basta a vida, né?”, então, aceitam um draminha, mas tem que ter o Morgan Freeman ou Robbin Williams, entre outros da mesma altura, afinal, só os americanos sabem filmar e só eles têm roteiros excelentes pra mexer com a alma, de tocar no fundo da alma, afinal, roteiros onde a mãe vai atrás da guarda do filho, ou a psicóloga foge de um paciente psicopata, ou um homem de meia idade que sempre fez o bem ao mundo e morre de câncer, ou a catástrofe de uma megalópole que começa com New e acho que termina com York são originais e merecem Oscar, afinal, eles são assim, fãs de filmes que ganharam “o Oscar”. Eles gostam do cinema americano, não gostam do filme europeu porque acham parado, acham chato, afinal, “de triste basta a vida, não é mesmo?” então, porque sofrer? Filme nacional eles gostam também, mas precisa ter ator global, senão não deve ser bom, mas tem que ser engraçado e ter final feliz, pois a felicidade é pra ser vista e sentida na tela, não na vida, porque na vida não é possível, né? Filme nacional fala muito palavrão, mostra mulher pelada e gente pobre, filme bom tem que mostrar loira peituda burra no carrão em Beverly Hills dizendo “motherfucker” entre uma bola de chiclete rosa sendo estourada simultaneamente ao enrijecer dos mamilos disponibilizados sob a blusa apertada para excitar o povo cercado de pipocas e combos gigantescos nas poltronas aveludadas e preparadas para casais fanáticos pelo cinemão calórico, pela película de glicose e pelo final gordurosamente feliz. Eles gostam disso, eles são assim, daqueles que falam que Europa é um continente antigo, que ninguém gosta de coisa velha, e que os Estados Unidos é uma maravilha para se morar, afinal, eles têm tudo lá, toda a tecnologia, respeito pelos habitantes, segurança, compras, milk-shakes, hambúrgueres, hot-dogs, pizzas e calorias por toda a parte, mas que aqui, nos selfs da vida, escolhem as verdinhas já citadas, pois é necessário se cuidar, né? É necessário cuidar do corpo, mas da mente também se cuidam, compram livros de auto-ajuda, afinal, livro bom é aquele fácil, que mostra como viver melhor nesse mundo caótico de empresas mercenárias, mas que mostre uma luz no fim do túnel corporativo para ser o funcionário do mês a ser prestigiado por algo que fez com festinha de comemoração na sexta-feira, onde podem ir sem o gel no cabelo e sem a gravata, afinal, é sexta-feira, e só na sexta-feira podem suavizar os padrões, só na sexta, afinal, eles podem deixar a barba crescer também pra ir no churrasco no sábado mais à vontade, o churrasco do cara mais legal da empresa que ele ama e que dá benefícios. O churrasco onde vão tocar aquela musiquinha mais agitada, e não aquela música triste que serve só para depressivos. Aquele churrasco onde pedem pra tirar foto e ficam mais rígidos que o carvão do churrasco fazendo pose com sorrisos de leste à oeste, pedem para tirar a foto com os amigos em diversos lugares, que são os mesmos lugares, os mesmos amigos e as mesmas poses. São aqueles que, quando viajam para um lugar fora do Brasil (lembrem-se, só Estados Unidos), tiram fotos na frente de monumentos históricos, bem na frente, bem sorridentes e bem na frente da foto, ou no máximo no cantinho, pra depois colocar nas redes sociais com a legenda “foi show… uhuuu!!!”. Sim, eles são assim. São aqueles que dizem que o sobrinho faz o layout do convite do batizado muito melhor que você, pois “o moleque tem as mãnha, ele faz no computador dele, o último que ele comprou lá na megastore” e o texto do convite ele mesmo escreve, porque sempre escreveu bem na escola e a esposa deu aula de português até o ano passado. É… eles são assim, são os que escolhem aquela fonte bem legal para o mesmo convite do batizado porque acham a letra bonitinha, moderna e inovadora, eles escolhem a fonte Comic Sans. E sabem por quê? Porque eles são assim. Eles são Comic Sans.

João Aranha

27/10/2010

disponíveis
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Desabafo

– Ai, amiga, homem é complicado, viu…
– É, eu sei. Mas por que você diz isso?
– Ah, eu sempre quis um homem forte, sabe? Mas toda vez que eu encontro é um daqueles bombados, que parecem mais uma rã de sunga, sabe?
– Ah… é horrível mesmo.
– Não precisa ser tão forte, entende? Não precisa ser alterofilista, mas também não precisa ser magrelo, daqueles que tiram a camisa e a gente faz o raio-x a olho nu, entende?
– Entendo.
– E eu também não ligo pra classe social, sabe? Eu não ligo se ele não tem carro, mas sempre ter de ir buscar e levar ele pra casa é um saco, amiga.
– É um saco mesmo.
– Mas é legal ter uma estrutura também, né? Mas também não acho legal o cara ter muito dinheiro porque fica arrogante, acho um saco ouvir papos de golfe.
– Te entendo, amiga.
– E eu também gosto de homens românticos, daqueles que sabem encantar uma mulher.
– Concordo.
– Mas também não pode ser só romântico, tem que ter pegada, sabe? Que faça a gente se encantar, mas que deixe a gente no ponto, toda molhada, sabe o que eu estou falando, né?
– Claro, amiga. Claro.
– E, como falei, e no sexo então? Não ligo pra tamanhos, sabe? Não acho que pênis grande resolva a coisa em si. Tem uns que machucam e ainda nem sabem brincar com o meninão pra me deixar louca, mas também, pequeno também não dá, né? É tão bom me sentir bem preenchida…
– Com certeza, querida.
– Tem que ter pegada mas não pode ser grosso e estúpido. Tem que ser fino e ter grosso, e não ser grosso e ter fino, né amiga?
– Perfeito.
– Eu também sempre quis homem inteligente. Mas não precisa ser um idiota que só saiba falar de física quântica e a teoria do cosmos, entende? Não precisa ser assim, mas também, não saber escrever eu acho o ó, sabe? Poxa, escrever “te peço” com “s” não dá, né?
– Opa, total!
– E outra, tem que ser cavalheiro também. Dar a passagem pra gente, abrir a porta do carro, puxar a cadeira, essas coisas, né? Mas também, cavalheirismo demais enche o saco. Mas também não precisa esquecer a passagem, a porta e a cadeira e deixar a gente esperando, né amiga?
– Sim, amiga. Tem razão.
– Eu também acho que homem tem que se cuidar. Acho muito bacana um homem cuidar das unhas das mãos e dos pés, limpar atrás da orelha e aparar os pêlos do corpo, mas também ficar com uma necessaire a tira colo pra lá e pra cá fazendo escova acho muito efeminado, também não é assim, né, querida?
– Concordo. É difícil.
– E tem outra. Acho o máximo quando o homem ouve a gente. Que entende tudo o que a gente fala, mas não precisa abaixar a cabeça sempre, né, querida? Homem precisa ter opinião, poxa…
– Sempre achei isso.
– Pois é, amiga. E tem mais. Tem que ser cheiroso. Mas também, tomar banho de perfume é insuportável, além do mais é muito deselegante, né?
– Exatamente.
– Ele também tem que se dedicar, estar presente, sabe? Ele pode sair com os amigos quando bem entender, mas deixar a gente plantada durante 2 horas depois do expediente dele mesmo depois de avisar que ia demorar um pouquinho eu acho injusto. Ele pode jogar bola toda quarta-feira, eu deixo, mas precisa voltar cansado, suado e falar dos papos dos amigos que estão com problemas?
– É assim mesmo, amiga.
– Pois é. E tem mais uma coisa que me deixa louca.
– O quê?
– Ah, quando homem sai com a gente pra fazer compras é uma bosta. Eu não entendo porque eles não conseguem esperar a gente escolher um sapato em cada loja que eu entro. Não entendo como eles conseguem ficar sentados na cadeira dormindo ou com cara de estressado. Você entende?
– Perfeitamente, amiga.
– Poxa, eu acho homem muito complicado. Custa fazer esses pequenos gestos?
– Também acho, querida. Por isso que eu prefiro mulher.
– Como?
– É. Eu gosto de mulher. Eu sou mulher e entendo mulher.
– É mesmo?
– Claro. Me dá um beijo?
– Eu?
– É. Você. Me dá um beijo? Você é uma delícia.
– Acha mesmo?
– Eu não acho. Eu tenho certeza.
– Hmmm… sério?
– Sério. Vem cá… Vem aqui, me dá essa sua boca gostosa…
– Nossa… fiquei sem jeito, mas confesso que me arrepiou…
– Eu também tô arrepiada…
– Eu gostei…
– Eu também, linda…
– É a primeira vez que ouço isso de uma mulher.
– Por mim você vai ouvir sempre. Vem cá, vai… Me dá um beijo…
– Tá… um só, tá?
– Ok. Vem, gostosa…
– Mas vem cá… Você vai me ligar amanhã?

João Aranha

16/09/2010

Desabafo

– Ai, amiga, homem é complicado, viu…
– É, eu sei. Mas por que você diz isso?
– Ah, eu sempre quis um homem forte, sabe? Mas toda vez que eu encontro é um daqueles bombados, que parecem mais uma rã de sunga, sabe?
– Ah… é horrível mesmo.
– Não precisa ser tão forte, entende? Não precisa ser alterofilista, mas também não precisa ser magrelo, daqueles que tiram a camisa e a gente faz o raio-x

a olho nu, entende?
– Entendo.
– E eu também não ligo pra classe social, sabe? Eu não ligo se ele não tem carro, mas sempre ter de ir buscar e levar ele pra casa é um saco, amiga.
– É um saco mesmo.
– Mas é legal ter um estrutura também, né? Mas também não acho legal o cara ter muito dinheiro porque fica arrogante, acho um saco ouvir papos de golfe.
– Te entendo, amiga.
– E eu também gosto de homens românticos, daqueles que sabem encantar uma mulher.
– Concordo.
– Mas também não pode ser só romântico, tem que ter pegada, sabe? Que faça a gente se encantar, mas que deixe a gente no ponto, toda molhada, sabe o que eu

estou falando, né?
– Claro, amiga. Claro.
– E, como falei, e no sexo então? Não ligo pra tamanhos, sabe? Não acho que pênis grande resolva a coisa em si. Tem uns que machucam e ainda nem sabem

brincar com o meninão pra me deixar louca, mas também, pequeno também não dá, né? É tão bom me sentir bem preenchida…
– Com certeza, querida.
– Tem que ter pegada mas não pode ser grosso e estúpido. Tem que ser fino e ter grosso, e não ser grosso e ter fino, né amiga?
– Perfeito.
– Eu também sempre quis homem inteligente. Mas não precisa ser um idiota que só saiba falar de física quântica e a teoria do cosmos, entende? Não precisa

ser assim, mas também, não saber escrever eu acho o ó, sabe? Poxa, escrever “te peço” com “s” não dá, né?
– Opa, total!
– E outra, tem que ser cavalheiro também. Dar a passagem pra gente, abrir a porta do carro, puxar a cadeira, essas coisas, né? Mas também, cavalheirismo

demais enche o saco. Mas também não precisa esquecer a passagem, a porta e a cadeira e deixar a gente esperando, né amiga?
– Sim, amiga. Tem razão.
– Eu também acho que homem tem que se cuidar. Acho muito bacana um homem cuidar das unhas das mãos e dos pés, limpar atrás da orelha e aparar os pêlos do

corpo, mas também ficar com uma necessaire a tira colo pra lá e pra cá fazendo escova acho muito efeminado, também não é assim, né, querida?
– Concordo. É difícil.
– E tem outra. Acho o máximo quando o homem ouve a gente. Que entende tudo o que a gente fala, mas não precisa abaixar a cabeça sempre, né, querida? Homem

precisa ter opinião, poxa…
– Sempre achei isso.
– Pois é, amiga. E tem mais. Tem que ser cheiroso. Mas também, tomar banho de perfume é insuportável, além do mais é muito deselegante, né?
– Exatamente.
– Ele também tem que se dedicar, estar presente, sabe? Ele pode sair com os amigos quando bem entender, mas deixar a gente plantada durante 2 horas depois

do expediente dele mesmo depois de avisar que ia demorar um pouquinho eu acho injusto. Ele pode jogar bola toda quarta-feira, eu deixo, mas precisa voltar

cansado, suado e falar dos papos dos amigos que estão com problemas?
– É assim mesmo, amiga.
– Pois é. E tem mais uma coisa que me deixa louca.
– O quê?
– Ah, quando homem sai com a gente pra fazer compras é uma bosta. Eu não entendo porque eles não conseguem esperar a gente escolher um sapato em cada loja

que eu entro. Não entendo como eles conseguem ficar sentados na cadeira dormindo ou com cara de estressado. Você entende?
– Perfeitamente, amiga.
– Poxa, eu acho homem muito complicado. Custa fazer esses pequenos gestos?
– Também acho, querida. Por isso que eu prefiro mulher.
– Como?
– É. Eu gosto de mulher. Eu sou mulher e entendo mulher.
– É mesmo?
– Claro. Me dá um beijo?
– Eu?
– É. Você. Me dá um beijo? Você é uma delícia.
– Acha mesmo?
– Eu não acho. Eu tenho certeza.
– Hmmm… sério?
– Sério. Vem cá… Vm aqui, me dá essa sua boca gostosa…
– Nossa… fiquei sem jeito, mas confesso que me arrepiou…
– Eu também tô arrepiada…
– Eu gostei…
– Eu também, linda…
– É a primeira vez que ouço isso de uma mulher.
– Por mim você vai ouvir sempre. Vem cá, vai… Me dá um beijo…
– Tá… um só, tá?
– Ok. Vem, gostosa…
– Mas vem cá… Você vai me ligar amanhã?

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O Segredo é Olhar

Eu precisava disso. Precisava como preciso sempre. Ir ao cinema. Por mim ia todo dia, mas, obviamente, não é possível, nem pelo tempo nem pelo dinheiro, e como tempo é dinheiro, eu não tenho nenhum dos dois, mas sempre encontro um jeito de arranjar os dois. Pois bem, domingão raiou e eu tarde raiei, mas não ao ponto de perdê-lo. Assim, fui ao lugar onde mais gosto de ver filmes, o Espaço Unibanco, o lugar que sempre que eu vou tem um bom filme, tanto que vou sem saber a programação e sempre me dou bem. Vou às cegas e deixo meus olhos baterem nos pôsteres com horários e ler uma matéria rápida no mural que, sempre, tem boas resenhas sobre os filmes dali. É bater o olho e se deixar levar. E, falando em olhos, era disso que eu precisava, dos meus olhos em outra película na sala escura, minha catarse individual e necessária. Pois bem, escolhi “O Segredo dos Seus Olhos”.
A película em questão é a de Juan José Campanella, filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. O diretor é o também responsável por dirigir o famoso “O Filho da Noiva”, película esta que não vi ainda, mas anseio por ver. Mas o que eu queria dizer é que este hermano argentino tem o olhar que eu gosto. Um olhar sensível, um olhar de um diretor que sabe contar uma história, sabe entreter um público com uma aula de enredo que te prende não só pela história em si, mas pela sensibilidade do olhar, e é isso que me comove no cinema: a sensibilidade do olhar.
“O Segredo dos Seus Olhos” conta com a verdade dos atores na trama. É claro, todos os filmes têm esta ferramenta necessária, afinal, não basta um diretor bom se os atores não sustentam a obra, mas, nesse quesito, acredito que é este cinema que me prende, um cinema com um olhar diferente, um olhar que ofusca películas baratas de enredo no intuito de almejar bilheterias gigantescas e efeitos especiais em 3D, 4D ou “whateverD”. Quem me conhece sabe que eu sou fã de filmes europeus, latinos e nacionais, mas aprecio também o filme americano, mas prefiro os independentes do tio Sam que, estes sim, também me emocionam, mas o filme do meu xará do país vizinho (essa forçou hein, João?) tem essa coisa bonita de se ver, é um filme que te faz sentir uma história, de entrar nela. Todo filme tem este intuito, é claro, e talvez eu esteja aqui emocionado de ver um filme que me toca e, como sempre, falo de filmes que me tocam e, querendo ou não, são sempre os europeus, os nacionais, os latinos e alguns asiáticos, mas o querido Campanella tem um olhar fílmico que deixa, ou pelo menos me deixou, sensibilizado.
Quando os meus olhos tremem em certo momento do filme, prenunciando a ejeção de lágrimas é complicado, é sinal de que eu já estou no filme faz tempo. Na primeira cena, ou melhor, na segunda cena eu já estava preso naquele cárcere privado e privilegiado de admirar um bom filme. Nesta mesma segunda cena (acredito que não tenha atingido os trinta segundos iniciais) eu já tinha constatado que eu sempre acerto ao entrar no Espaço Unibanco sem escolher muito, embora sabendo do Oscar do diretor, mas já vi, naqueles olhos lindos e claros de “Irene”, um olhar diferente, o olhar de Campanella, na tela, no coração, na alma.
Trilha que envolve este ser que vos redige é outra coisa que me prende. Basta ouvir melodias simples nas teclas de um piano melancólico pra que meus ouvidos deixem entrar harmoniosamente a partitura da película juntamente aos violinos que puxam o rufar de tímpanos no fim de um compasso triste e angustiante que me arrepia internamente.
Afogo-me em poucas lágrimas, mesmo porque, poucas não querem dizer pouco sofrimento, mas sim, uma verdade sentida. Afundo-me na poltrona com espaços vazios para copos e pipocas americanizadas que não consumo desde que saí da adolescência (e olha que vou fazer 38 anos já,já), ora levanto e me projeto para frente, um sinal de quando a angústia aumenta ou algum suspense é potencializado.
Posso até estar exagerando, pois eu sou exagerado mesmo, afinal, sou escorpião de corpo e alma e exageros fazem parte da minha essência, mas nesta essência não tem mentiras, ela tem contemplação, como é comum da minha parte, mas parte de mim dizer o que vejo, o que ouço, o que penso, o que sinto e o que vivo.
Um filme belíssimo, sensível, bem feito, bem contado, bem elaborado. Um filme do país vizinho que constantemente tem produzido grandes filmes. Um povo argentino que mostra o que sabe fazer, tanto na arte cinematográfica quanto na criatividade publicitária, enquanto brasileiros sem sensibilidade alguma só pensam na rivalidade do futebol que, sequer param pra pensar, que a briga em campo é boa, mas que deviam deixar no campo apenas e não no campo da ignorância de muitos.
Um filme que eu precisava ver, como tantos outros que preciso. Um filme que eu precisava olhar, com o meu olhar, sem nunca saber o segredo dos olhos de Campanella, mas apenas para guardar, sozinho, comigo, através da minha retina, o meu já revelado segredo: o meu prazer em olhar o olhar.

João Aranha

24/05/2010

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Pois não?

Entrei na repartição pública e fui direto ao guichê mais próximo.
A funcionária que nem parecia funcionária me atendeu depois de um minuto e meio de espera, isso porque ela tinha me visto logo na entrada, assim que botei meus pés no estabelecimento velho e caído, e ela, neste momento, tinha me olhado com seus óculos velhos com as lentes engorduradas enquanto fazia suas unhas atrás de uma mesa próxima ao balcão, também velho e encardido.
– Pois não? – disse a colaboradora que não pode ser mandada embora.
– Eu gostaria de fazer uma reclamação.
– Pois não? Diga…
– Eu queria reclamar que o povo anda muito sem noção, sem educação, sem solidariedade, sem nenhum bom gosto ou bom trato com os outros.
– Só isso? – disse a manicure auto-didata.
– Como só isso? Eu vim fazer uma reclamação! Gostaria que a senhora pelo menos me dissesse quando isto será resolvido, pois não?
– Olha, meu queridinho, acho que você não entendeu bem. Aqui é um lugar destinado às reclamações e não às soluções, entendeu?
– Mas assim não dá! Eu vim reclamar porque quero alguma solução. A senhora não pode encaminhar isso para algum órgão competente?
– Órgão competente? O que é isso?
– Ah…não… acho que vossa senhoria pertence ao órgão concorrente, o incompetente…
– Olha garoto, como eu já disse, sua reclamação já foi feita e está tudo certo.
– Como tudo certo? Não vai ter solução nenhuma?
– Já disse, garotão. Essa sua reclamação não serve pra nada, só serve pra arquivar, que é exatamente o que vou fazer agora com o seu pedido. Ou melhor, agora não, porque tenho outros processos na frente que são do filho do prefeito, e esses processos dele são de ordem particular, e os processos particulares passam na frente dos processos de reclamações públicas, ok?
– Ah, então além dos processos particulares passarem na frente do meu, e sendo que o meu não é do filho do prefeito, seria só arquivado? É isso? – disse eu com a face ruborizada de nervoso acumulado.
– Sim, filhinho.
– A senhora pelo menos ouviu o meu pedido atentamente? Lembra-se do que eu falei? Da falta de educação, solidariedade, bom trato, essas coisas?
– Como era mesmo a sua reclamação?
– Deixa, esquece… não vai adiantar mesmo…
– Olha, moleque, se veio aqui pra encher meu saco você perdeu o seu tempo, porque eu também já perdi o meu. É melhor ir embora agora, entendeu?
– Muito obrigado pela delicadeza, viu?
– Vem cá! Você foi irônico, rapaz?
– Não, de maneira alguma. Estou agradecendo a sua atenção.
– Escuta aqui, vou chamar a polícia se você continuar fazendo gracinha, você está entendendo?
– Entendi. Obrigado por ser tão solícita.
– Seguranças!!! Tratem de tirar esse delinquente daqui. Ele me chamou de não sei o quê que eu não entendi. Isso é desacato!
– Tenha um bom dia, minha senhora.
– Bom dia o caralho!!! Moleque!!! Não tem coisa melhor pra fazer na vida?

João Aranha

18/05/2010

Pois, não?

Entrei na repartição pública e fui direto ao guichê mais próximo.

A funcionária que nem parecia funcionária me atendeu depois de um minuto e meio de espera, isso porque ela tinha me visto logo na entrada, assim que botei meus pés no estabelecimento velho e caído, e ela, neste momento, tinha me olhado com seus óculos velhos com as lentes engorduradas enquanto fazia suas unhas atrás de uma mesa próxima ao balcão, também velho e encardido.

– Pois, não? – disse a colaboradora que não pode ser mandada embora.

– Eu gostaria de fazer uma reclamação.

– Pois, não? Diga…

– Eu queria reclamar que o povo anda muito sem noção, sem educação, sem solidariedade, sem nenhum bom gosto ou bom trato com os outros.

– Só isso? – disse a manicure auto-didata.

– Como só isso? Eu vim fazer uma reclamação! Gostaria que a senhora pelo menos me dissesse quando isto será resolvido, pois não?

– Olha, meu queridinho, acho que você não entendeu bem. Aqui é um lugar destinado às reclamações e não às soluções, entendeu?

– Mas assim não dá! Eu vim reclamar porque quero alguma solução. A senhora não pode encaminhar isso para algum órgão competente?

– Órgão competente? O que é isso?

– Ah…não… acho que vossa senhoria pertence ao órgão concorrente, o incompetente…

– Olha garoto, como eu já disse, sua reclamação já foi feita e está tudo certo.

– Como tudo certo? Não vai ter solução nenhuma?

– Já disse, garotão. Essa sua reclamação não serve pra nada, só serve pra arquivar, que é exatamente o que vou fazer agora com o seu pedido. Ou melhor, agora não, porque tenho outros processos na frente que são do filho do prefeito, e esses processos dele são de ordem particular, e os processos particulares passam na frente dos processos de reclamações públicas, ok?

– Ah, então além dos processos particulares passarem na frente do meu, e sendo que o meu não é do filho do prefeito, seria só arquivado? É isso? – disse eu com a face ruborizada de nervoso acumulado.

– Sim, filhinho.

– A senhora pelo menos ouviu o meu pedido atentamente? Lembra-se do que eu falei? Da falta de educação, solidariedade, bom trato, essas coisas?

– Como era mesmo a sua reclamação?

– Deixa, esquece… não vai adiantar mesmo…

– Olha, moleque, se veio aqui pra encher meu saco você perdeu o seu tempo, porque eu também já perdi o meu. É melhor ir embora agora, entendeu?

– Muito obrigado pela delicadeza, viu?

– Vem cá! Você foi irônico, rapaz?

– Não, de maneira alguma. Estou agradecendo a sua atenção.

– Escuta aqui, vou chamar a polícia se você continuar fazendo gracinha, você está entendendo?

– Entendi. Obrigado por ser tão solícita.

– Seguranças!!! Tratem de tirar esse delinquente daqui. Ele me chamou de não sei o quê que eu não entendi. Isso é desacato!

– Tenha um bom dia, minha senhora.

– Bom dia o caralho!!! Moleque!!! Não tem coisa melhor pra fazer na vida?

João Aranha

18/05/2010

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Vim te escrever

E assim foi, assim foram, assim está sendo e assim será. Uma folha, um lápis, ou uma caneta, não me lembro bem, mas lembro do início, da página branca, virgem para a tinta molhada deste ser, pura para receber as primeiras palavras ainda sem noção, sem pretensão alguma, apenas a vontade nova de expressar algo no papel, este cândido amigo, preparado para o que viesse ele receberia deste pequeno homem despreparado nas letras e na vida, mas, de certa forma, preparado para deixar seus sentimentos na folha em branco, toda alva num alvo de registros, mas pronta para abraçá-los com carinho e boa vontade, prestativa para com a vontade do menino ansioso, que mal sabia o que dizer, só certo estava de que algo seria ejetado de seu ser, de sua alma, de seu cerne. Vinte anos exatos se passaram e a vida mudou. Mudou e ainda muda, e na muda voz permanece a paixão pela escrita iniciada no dia 16 de abril de 1990, data comemorativa para este pequeno ser, mas mais comemorativa pelo nascimento de alguém encantador como Spencer, o famigerado e adorado Charles Spencer Chaplin, que escreveu sua poesia nas telas através dos gestos e trejeitos simplórios e pueris dentro da película que não falava, na linguagem muda que mudou a arte de fazer sorrir e chorar seres sensíveis que mudam o mundo surdo e cego, mas que abraçam o coração até daqueles que não o têm. E para quem tem, acredito eu, como eu, a primeira página de vinte anos atrás marcou um ofício, por vezes difícil de realizar, mas fácil no sentir, e por assim dizer, o prazer do deleitar não em busca do sucesso, mas o de confeccionar a alma escrita. A necessidade de se ler e ler o que se vive, o que se sente, o que se é. Vinte anos se passaram e passarão mais deles, e sem poderes, agradeço quem lê, quem me vê e quem me inspira ao escrever. Obrigado a todos.

João Aranha

15/04/2010

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