Não sei nada sobre o crepúsculo, ou sobre a lua nova, o marketing crescente, a pipoca cheia e conteúdo minguante, mas uma coisa eu sei: filmes de vampiros com sensibilidade de verdade não é comum e, claro, vindo da Suécia é mais incomum ainda. Como sabem, não sou fã de blockbusters, apesar de já ter trabalhado em uma, mas o problema é quando todo mundo começa a gostar de uma determinada coisa e, vindo essa coisa das terras do Tio Sam, novamente, me ponho a ficar em fúria, porque tudo o que vem de lá vira marketing, vira brinde, vira a cabeça das pessoas e eu, revoltado e indignado com pessoas que amam enlatados e séries pelo mundo afora, fico neurótico e estressado quando só se falam em um assunto, ou melhor, num filme só. Calma, pessoas, eu gosto de filmes americanos e até algumas poucas séries, mas é bem a minoria que eu gosto, e tanto os filmes como as séries não são daqueles em que as adolescentes ficam levemente, ou totalmente, com as roupas de baixo úmidas por um sorriso ou até pelo não sorriso de um galã e a adolescência masculina também deixa-se excitar pelos cabelos de uma menina bonita que faz par com o referido acima. Volto a frisar que, não assisti e, talvez, seja um bom filme, antes que me ataquem no pescoço mas, por que não assistir um filme diferente, daqueles que não se ouve falar, daqueles que não se vê em qualquer sala de cinema mas que, em si, nos tocam, nos deixam amenos e bem menos estressados com tamanha fome de filmes e séries em sequência?

“Deixa ela entrar” é o filme sueco de que falo aqui, uma película que mostra o filme de vampiros mas com um olhar diferente, e é exatamente esse diferente que me fascina. Diferente por três motivos: primeiro porque não posso considerar um filme com clichês vampirescos com o excesso de sangue que nenhum posto de saúde jamais teve em seu estoque, mas sim o sangue que existe, mas em doses homeopáticas, sem exageros ou aparições desnecessárias; segundo porque é um filme europeu, ou seja, não compete com brindes, firulas e pipocas, apenas mostra a história e pronto, com uma narrativa simples e sem firulas de efeitos especiais e, em terceiro; por ser um filme delicado, pacífico, que mostra o lado noturno do vampiro através de duas crianças, um menino extremamente inocente e indefeso e uma menina, com o seu lado transilvânico na alma, no corpo e, é claro, no sangue.

Um filme extremamente bonito, mesmo dentro dos moldes da criatura dos infernos aterrorizando almas desavisadas em busca de seu alimento de prefixo fator RH. Como o próprio comentário de um crítico, que se encontrava no próprio poster, eu devo repetir: “um filme sombriamente poético.” Essa frase eu realmente queria ter feito, foi o comentário mais próximo da perfeição. E, seguindo ele, devo dizer também que o filme mostra o amor entre essas duas crianças, um romance ingênuo, onde os dois se deparam diante da serenidade e simplicidade que é ser criança e de não terem dúvidas ou medos, mas sim, a vontade de se entregar, mesmo que não seja a um namoro normal, mas a uma amizade pura, com poesia e com a força que um amor, mesmo através dos anos, permanece nos corações humanos e, inclusive, nos que passaram desta para outra fase da vida, ou da morte.

Recomendo o filme, está sendo exibido no Espaço Unibanco, ah… como eu gosto desse lugar, viu? Tanto é que escolho, como já falei, quando chego lá e, sempre, assisto um filme bom, afinal, pra mim, cinema de verdade está lá.

Lembrando, eu já assisti muitos filmes de vampiros, até com o Jack Palance (essa só os amigos arcaicos lembram) eu assistia e o que mais gostei foi o “Drácula”, de Bram Stocker, do diretor Francis Ford Copolla, que mandou muito bem em 1992. Os “crepúsculos” ou “inescrepusculosos” que me desculpem, mas se for casalzinho bonito pra vender pipoca, que vendam a sobriedade sueca, com sotaque árduo de se ouvir, num frio de congelar, mas com a sensibilidade de aquecer nossas almas.

E se a poesia bater em seu coração, por favor, deixa ela entrar. É aí que nós renascemos.

João Aranha

19/11/2009

O poeta escreve sozinho
O poeta escreve para si
Escreve para o seu eu
Expressa sua palavra
Empresta sua letra
Jorra no papel
Seu lugar ao céu
Exprime seu amor
Sua alegria
Seu temor
Sua delicadeza
Seu odor
Quando falta tema
Teima em tê-lo
Colecionador de selos
Femininos
Grudados na boca
Fincados na memória
Poeta é poeta
No fogo, no gelo
E mesmo que não saiba sê-lo
Tem zelo
Pela sua obra
Pelo fervor
Faz da febre sua escrita
Que grita, que chora
Põe pra fora
O que ninguém entende
O que ninguém sente
O que ninguém vê
Jaz sozinho na cama aflita
Na mesa feia
De madeira bonita
Acende a vela
Mas não revela
Guarda para si
O seu tormento
O seu sustento
Poeta precisa de poesia
Poesia nasce de um poeta
Profeta
Profere
Numa rima que não ri
Só rima
Só ri
E só, ele ri
Vive, escreve
Da ponta do lápis
É parte vivida
Página rasgada
Apagada ou bem escrita
Uma vida
Por vezes pública
Por vezes pudica
Poeta que sempre implica
Com as vidas vazias de outrora
De outrem
Corações ocos peturbam o poeta
Ele quer mais
Quer viver depois da tinta
Ir além do papiro
Além do respiro
Da alma
Da alfa, da beta
Ele precisa do rancor
Que explique a saudade
Não importa a velha idade
Nem a que tem frescor
Poeta nasce triste
Mas vive bem
O insensível não compreende
Só vende o seu bolor
Descansa o poeta
Que sente amor
Regurgita dor
Louva o torpor descabido
Ou a singela libido
Faz-se da alma dos outros
Traz pra si o alheio calor
Não precisa ter mulheres
Só precisa das suas
Olhá-las sacia sua fome
Não importam os sobrenomes
Mas sim, seus nomes
Pobre poeta
Dorme tranquilo
Acabou o nanquim
Fechou o botequim
E aquela manequim
Não sabe de ti
Basta sua ciência
Sem consciência
Torna-se vivo
Distraído
Feliz e entorpecido
Na ausência de um amor
Mas para que escrevas
Meu caro poeta
O que lhe falta
É sua dor.

João Aranha

17/11/2009

Na vez que vem
Eu vou
Na vez que foi
Fui eu
Na vez que está
Estou
A vez é minha?
Às vezes sim
Às vezes não
Às vezes
É a minha vez.

João Aranha

12/11/2009

flor

Cansei de ser romântico! Cansei. É, meu amigo, agora serei mais prático, assim, pouparei o tempo disperdiçado com as noites cercadas de devaneios antes de adormecer e nas manhãs de chuva onde eu via o sol para, assim, eliminar essa coisa patética que é ser romântico. Serei, a partir de agora, um sujeito mais corporativo, com focos e metas a cumprir, baterei cartão ao invés de dar a cara para bater ao mostrar minha alma de pseudo poeta.

Ser romântico não está com nada, o que vale é funk até o chão, rebolar sem coração, detonar no meio do salão, rir do “não” recebido, focar no seu libido e não pensar no ser sofrido que é o ser romântico. O ser romântico custa caro, demanda tempo, pensamentos e dinheiro. O romântico baila sozinho na fossa própria, no embalo de si mesmo numa corrida nunca a esmo. A conta das flores já ultrapassa a conta do aluguel e, se for ver, as mulheres não gostam de flores assim, meu querido. Quem gosta de flor é paisagista ou dono de floricultura. As mulheres gostam do gesto, não das flores. Se você, meu amigo, oferecer flores para alguma mulher de seu interesse e a formosura não tiver o mesmo interesse em relacão a ti, forget about it, queridão, você, pobre poeta, será apenas um cara gentil, educado e doce, isso não quer dizer que seus braços envolverão a doce princesa ao demonstrar seu afeto, ela apenas sorrirá e ficará, realmente, feliz, mas não ao ponto de te amar, meu caro romântico, que agora está cada vez mais caro, porém, sem oferta, pois o que interessa é o funk descabido, o pagode reunido, o sertão que virou mar no chacoalhar das fivelas nos chãos de poeira universitária. As flores que você encaminhou tão alegremente servirão para adornos na sala, ou, mais precisamente, no corredor, naquele lugar onde se passa rápido e sem perceber o ambiente, normalmente com pressa na saída ou com cansaço na chegada. Mas, pobre homem, caso o gineceu e o androceu das flores sejam entregues pelas mãos daquele pretendente que a deixa derretida por dentro, sem chão para pisar e com os olhos brilhando com a doçura que você gostaria de ver olhando para os seus, aí sim, meu camarada, tais flores terão os tais valores pretendidos por ti.

Aprenda, meu rapaz, que não importa o seu jeito de falar, o seu inteligente pensar e o seu achar das coisas, sua roupa cara, sua voz macia e a porta puxada ao sair do carro, o que importa é ela querer você, é mais simples do que você imagina, mas sei que não enxergamos isso, pois cegos ficamos, é compreensivo e por isso o taxam de ingênuo, de tolo, por vezes descabido e infantil, até com alguma razão para alguns fora do eixo, mas o romântico não é burro, e muito menos bobo como a maioria gélida e desavisada porção de pessoas pensa, muito pelo contrário, ele erra, sim, mas tem o raro prazer pelo tentar, é isso que o faz romântico da melhor qualidade, junto ao respeito e o cavalheirismo, ambos naturais de seu cerne. Mas é a busca incessante, é o querer, é o “ir atrás”, é tentar ganhar o “sim”, mesmo que só venha em sua direção o famigerado iceberg, o glacial “não”. Essa é a diferença do romantismo para o egocentrismo machista, onde o “não” se torna motivo para o bombadão se achar no direito de maltratar a dama abaixando o nível de seu ser e de si próprio. O romântico sofre calado, indigna-se, mas morre por dentro, na dele, sem fazer escândalo, apenas deixa partir sua alma em dois, não fazendo mais questão de guardar a parte caída, olhando para baixo, emsimesmado, taciturno, com seu macambúzio coração apertado e a flor murcha sem o perfume de outrora, sem as cores de antes, sem a ansiedade de antes. O machão encara numa boa, o romântico chora à toa e segue sua toada.

Não adianta mais a natural conquista, o amor à primeira vista, o bilhete escondido, o olhar retrucado, o corpo arrepiado e o coração envolvido se ela não te quer, meu querido amigo. Quando ela quer, não é necessário flores, odores e suas dores, mas sim, a troca imediata de poucas palavras, o que você, romântico, precisa aprender mais, pois funciona.

Mas você não erra, romântico, sabe como ninguém que, como também costumo dizer, o melhor xaveco é aquele que você nunca falou, mas foi dito pelo seu olhar e correspondido pelos meigos e sensuais olhares da moça. É assim que se é feliz, ou pelo menos, mais feliz. Calma senhor romântico, não tenhas medo, não estás errado. Estás apenas em sua real conduta, preso na gruta do seu ser ermitão, que vê o sol no rosto da sua amada, que ora é raptada pelas mãos de outrem, ora não quer as mãos de ninguém.

O teu dente bonito, tuas vestes bem passadas, tuas fragrâncias bem escolhidas jazem todos juntos com seu esforço no poço de tua alma, meu amigo, mas é neste mesmo fundo, deste mesmo profundo poço, que encontras um novo olhar, um novo palpitar, um novo frescor.

É, meu caro, não é fácil ser romântico, isso dá um trabalhão e, na maioria das vezes, sem remuneração. O importante é que você não é adocicado, pois se caso fosse deveras doce, até eu se mulher fosse, diria a ti um “não”. Mulheres gostam de doces, mas não de homens açucarados, mas relaxe, bom homem, teu açúcar é bem dosado, nunca transbordado até o chão. Mas, olha, devo confessar-te, eu também cansei, meu irmão. Não quero mais ser romântico, quero ser o pop da multidão, a celebridade do povão, a cabeça vazia do corpo bombadão. Vou esquecer meus poemas, dançarei até tardão, beberei as loiras e morenas numa esquina suja, bem na boca, para pegar um mulherão. E se ela disser “sim”, corro para o quente abraço, aperto sua cintura fina e beijo o teu usado “não”.

E no dia seguinte, mandarei algumas flores, com pouco açúcar, mesmo que seja em vão.

João Aranha

03/11/2009

Dias assim deviam ser sempre cinzas.
O sol não combina com a lágrima que rola por minha face.
O frio podia fazer companhia para esse coração já gelado.
O quarto tem testemunhado os sofrimentos
e não mais as alegrias.
as juras.
o calor do suor.
e as promessas sussurradas ao pé do ouvido.
E do coração.
Uma chuva bem fininha e um guarda chuva na bolsa. fechado. para lavar a alma. para ter assunto. para ter uma novidade.
O pensamento na lua.
Uma música no ouvido.
e todo o amor dessa vida no coração.
E no quarto vazio jaz o sentimento
Uma vez fomento
da troca de suor
da troca de olhares
Nas paredes, testemunhas
Auditivas, oculares
A companhia do gélido coração
Não vem mais
Ele está fraco
Bate pouco
Só acelera ao sentir saudade
De uma idade que não mais tem
Música e pensamento
Faz palpitar
O velho
E bom jazido
Sentimento
Cai a chuva
E junto
Ele vai.

João Aranha e Cris Carnaval

28/10/2009

Segunda-feira chuvosa, trânsito caótico e, no atraso comum dos afazeres diários da paulicéia desvairada, era da minha espera, nesta segunda-feira, ir ao Espaço Unibanco, que tanto gosto de frequentar mas que, por falta de tempo, não via Oscarito e Grande Otelo na parede há, praticamente, três meses. Estava falecendo minha alma cinéfila e boêmia quando, num e-mail, recebo um amistoso convite do diretor Márcio Werneck para prestigiar seu mais novo documentário, o “Boca a Boca”. Agradecido fiquei com o convite e, com meu sorriso na cara, na sequência, confirmei minha presença na estreia.

Avistei o diretor na entrada mas, como estava longe, não quis abordá-lo, deixando para o final da exibição. E, falando nela, a película em questão é sobre “dentes”, mais precisamente, sobre o sofrimento da população, principalmente crianças carentes por esse Brasil todo que não têm dinheiro para fazer tratamento em seus dentes, não têm recursos suficientes para melhorar, cuidar e manter sua higiene bucal. O documentário mostra também o trabalho de uma ONG que se chama “Turma do Bem”, na qual participam diversos dentistas voluntários que oferecem tratamento dentário à população carente, gratuitamente, até os dezoito anos de idade, por este Brasill afora. Um trabalho honesto, enfático, beneficente e que cuida realmente de crianças e jovens que sentem vergonha durante parte das suas vidas por não ter um dente bonito, por não ter um dente, por não ter vários, por ter eles tortos, amarelados, cariados, entre outras mazelas dentárias mas que, após o tratamento, recuperam o sorriso e, junto a ele, a auto-estima falecida por causa de um descuido do governo, má vontade de outros órgãos públicos e pelos preços exacerbadamente altos para o tratamento dos mesmos. Um trabalho de boa vontade, de uma turma do bem, que faz o bem para milhares de crianças e que garantem, com isso, que elas conquistem seus sonhos, podendo sorrir como toda criança deve sorrir, sendo elas mesmas, podendo conquistar a felicidade de serem pessoas normais diante de uma sociedade com bruxismos, dentro de um governo cariado há décadas, entre tantos problemas que deveriam ser extraídos do nosso país por uma elite com sorriso amarelo perante às verdades ditas na cara, diante de empresários que não entram no projeto por questões puramente mercadológicas, pois pensam apenas no barulho que o motorzinho fará no mercado em troca de dinheiro, sua marca, sua posição em relação ao concorrente.

“Boca a Boca” mostra com leveza e musicalidade a verdadeira relacão que as pessoas têm quando o assunto é tratar do dente. Com uma linguagem simples, direta, sem anestesia, brasileira, fiel, que retrata pessoas que não saem em retratos. Um filme permanente que diz o quão dente de leite se encontra esse país, que precisa de tratamento de canal urgente, de obturação no sistema de saúde pública, na restauração de uma elite que se preocupa somente com seu próprio sorriso. Um documentário incisivo, que deixa a gente de boca aberta, vendo notícias que são escondidas no bafo da ignorância e má fé de autoridades. Pessoas que querem sorrir mas não encontram o espelho onde podem mostrar seu rosto mas que, espero, que melhore daqui pra frente, fator este onde a película de Werneck, o idealizador Fábio Bibancos e a Turma do Bem fazem sua parte mas que, todos nós, juntos, precisamos passar um fio dental em tudo o que há de errado na saúde e fazer aquele bochecho ardente geral para limpar o que deveria estar branco, limpo e saudável e não amarelo, sujo e extremamente deteriorado.

Parabéns Márcio Werneck e Turma do Bem!

Próximo!

João Aranha

28/10/2009

cult

Elas são assim
Cheias de si
Não cheias de razão
Mas com razão
Uma visão diferente
Observam as coisas de outro modo
Tem perspicácia
Humor contagiante
Sorriso diferente
Sabem do que acontece no mundo
Sabem do seu lugar no mundo
Se preocupam com o mundo
Fazem o seu mundo
E, dependendo, param o mundo
São lindas
E se não forem, conseguem ser
Carregam o charme fora da bolsa
Mas se tiverem uma, também vem junto
Inteligência, displicência
Básico, decência
São ativas, pró-ativas
Sabem o que querem
E o que não querem
Riem com doçura
Choram sem frescura
Detalhes que enfeitam
Quando acordam
Quando deitam
Sabem falar, dialogar
Pedir, implorar
Tendências, moda
Sabem o que existe
Sabem o que rola
Algumas meigas, outras práticas
Umas sérias, outras enfáticas
Não importa o que fazem
Mas fazem com leveza
Do jeito delas, beleza
Falantes ou quietas
Olham além
Em alfa, nirvana
Sabem ser
Vão além
Não são aviões
Mas decolam
Não param trânsito
Se deslocam
Não ligam para os outros
Recebem ligações
Gostam de animais
Flores e muito mais
Livros, cinema
Dança, poema
Cigarros, cerveja
Sexo na cama
No chão, na mesa
Falam de tudo
Ouvem também
Umas malucas
Mas todas do bem
Usam e abusam
Essência zen
Não dá pra entender
Mas dá pra entreter
Questão de um segundo
E num olhar
Se envolver
Cuidam e se cuidam
Abominam bombadas
Assim elas são
Cultizinhas
E descoladas.

João Aranha

26/10/2009

cortina

Não se atua quando tem sentimento
Não se representa quando se sente
Não se finge quando se vive
No palco da vida não tem ensaio
Não tem esquete
Mas tem risos
Dramas e lágrimas
Palco de uma peça só
Protagonista de uma história
Dramaturgo
Sem tempo pra ensaiar
Sem ter de decorar
Apenas improvisar
Peça grande
Grande elenco
Duetos, monólogos
Tragédia
Comédia
Irônico, tragicômico
Grandes companhias
Companhia de um homem só
Companhia sem companhia
Primeiro ato
Merda
Segundo ato
Quebre a perna
Terceiro ato
Entra em cena
Ser ou não ser
Seja você
Essa é a questão
Esse é o timing
Não use caco
Casa vazia
Coração oco
O público não vê sua alma
Perdi minha fala
Deu branco
Não tem aplauso
No proscênio
Na coxia
Não estou mais em cartaz
A peça não volta atrás
Remontagem?
Talvez
Outro ator
Outra diva
Outro texto
E no contexto
Volto ao camarim
Rio de mim
Tiro a maquiagem
Borrada pela lágrima
Sou o palhaço triste
Guardo o riso
Engaveto o figurino
Desmonto o cenário
Enrolo o lambe-lambe
Boto na sacola
Pego a deixa
Saio de cena
É hora de me entregar
Em um novo espetáculo.

João Aranha

20/10/09

Nunca diga nunca
Na terra do nunca

Nunca
Na terra do nunca
Nunca acontece

Eu?
Nunca
Na terra?
Nunca

Eu nunca disse nunca
Nunca direi nunca
Nunca, nunquinha
Nunca fui pra terra do nunca

Nunca é tarde
Nunca é nunca

É agora
Ou nunca.

João Aranha

15/10/09

Caros amigos, estava eu fuçando os meus arquivos quando encontrei um texto antigo e resolvi postar. Foi uma tentativa de explicar o trabalho do ótimo cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, em seu filme “Edifício Master”.

Abaixo, um trecho do filme e o texto em questão.



O Prédio do Brasil.

Posso entrar? Pode. Entramos. Estas são as palavras, ou pelo menos próximas disso, que mais ecoaram no Edifício Master, no Rio de Janeiro, no famoso prédio de tantos mil moradores onde residem tantas outras mil famílias e sua grandiosas histórias. Neste documentário de Eduardo Coutinho não entramos nas casas dos moradores do famigerado condomínio carioca, entramos, sem querer e por querer, na vida destes cidadãos, ou mais profundamente, na alma de alguns deles.

O produto audiovisual de Coutinho é propositadamente simples, sem quaisquer peripécias de edição ou efeitos visuais, e esta simplicidade do documentário está principalmente na percepção e captação de novas e desconhecidas histórias que, de simples passam a ser ricas e grandiosas. Eduardo Coutinho visitou vários apartamentos deste antigo prédio do Rio de janeiro no intuito de extrair vidas que nunca foram postas ao público e, certamente, o mesmo público telespectador nunca saberia delas se as lentes do documentarista não investigasse, com atenção minuciosa, as histórias que elas tinham para contar.

A rotina invadida pela equipe do cineasta, basicamente feita de um produtor, um cinegrafista, provavelmente algum assistente e um diretor de olhos atentos e ouvidos em pé para tantos e maravilhosos depoimentos de uma classe média baixa que enfrenta dificuldades pela vida. A receita do filme, que realmente foi produzido em formato digital, era simples: fazer perguntas e ouvir respostas. Essas perguntas eram feitas sem o saber do público, vindo a aparecer somente nas respostas dos entrevistados. Todos os entrevistados, trabalhadores, estudantes, donas de casa e aposentados foram retratados no vídeo com profundidade humana, pois todos contavam suas vidas sem qualquer cerimônia diante de uma câmera, sem vergonha de dizer as verdades que vivem em seu dia-a-dia. Coutinho e sua equipe, pacientes e curiosos como uma boa equipe de documentaristas deve ser, arrancaram preciosidades dos condôminos que, aos poucos, iam cativando os cinéfilos e admiradores do “cinema verdade”. Todos mostravam ou contavam suas rotinas, suas trajetórias, suas vontades, medos, alegrias e tristezas diante de uma vida sofrida e adaptável na medida do possível, todas em meio a cenários verdadeiros, ambientes nunca vistos antes, mas que são facilmente reconhecidos pelo público do Brasil: a casa do brasileiro.

A veracidade dos fatos contada pelos moradores enriquecia o documento à medida que o tempo ia passando, moradores anônimos passaram a ser atores de uma realidade própria, onde ficção não existe e não funciona. O que acontece com estes moradores do gigantesco edifício são vidas, com perdas e ganhos, mas são vidas que se cruzam com nossas verdades e com fatos que acompanhamos, de certa forma, em jormais, novelas, filmes e até ouvindo o povo dizer nas ruas. Muitos moradores do prédio conhecem seus vizinhos, outros, porém, nem sabem quem mora ao seu lado, muito menos quantas pessoas existem no mesmo andar ou apartamento pegado, mas até então este não é um problema e sim, mais um rico detalhe das vidas conturbadas dentro do Master.

Violência, barulho, silêncio, coleguismo, amizades, sustos, festas, esconderijos, confissões, amores, descasos, tudo o que se possa imaginar já aconteceu no Edifício Master, não importando a razão das coisas, mas a intensidade com que fatos ocorridos lá é que ditam a vida do prédio.

Um documentário questionador, cheio de “causos” vividos ou não vividos enfatizam o tamanho que é este Brasil, só pelo retrato de um prédio, repleto de emoções diferentes em meio à pluralização de costumes, crenças e hábitos brasileiros.

Em determinado momento podemos nos comover junto com um dos protagonistas de plantão, num maravilhoso e verdadeiro cantar de Frank Sinatra misturado com a voz real de um senhor aposentado que teve a rara oportunidade de conhecer o cantor e ator norte-americano em época mais ativa de sua arte. Sua cantoria traz a saudade de um tempo que não volta mais e percebemos, nitidamente, que o tempo para todas as pessoas passa e muitas coisas acontecem na vida de cada um. A força do canto do aposentado deixa a platéia desavisada emotiva juntamente com a sensibilidade do morador, uma das partes mais interessantes deste documentário.

Muitos residentes do prédio são agradecidos pelo cantinho disponível para suas vidas e seus afazeres, nota-se uma sensível gratidão de grande parte do grupo entrevistado, pois aventuras e turbulências fizeram parte do Master, mas o mesmo abraçou e recebeu todos eles, como uma mãe recebe os filhos de volta pra casa. São os bem acolhidos filhos do Master que protagonizam este belo documentário do diretor acostumado com verdades e mais verdades, devido à sua grande experiência com jornalismo documental em emissoras de tv e seus filmes que mostram, nada mais, nada menos, que a verdade propriamente dita.

O olhar de Coutinho é simples. Com suas câmeras paradas em momentos certos, outrora em movimento, fazem dele um cineasta de verdades puras, carregadas de imagens de um Brasil real e sem hipocrisias baratas. Um cinema onde se mostra como se vive no Brasil, como se faz cinema verdadeiro, uma força de vontade pela realização audiovisual em um país miserável de finanças, mas rico de poesia, humanidade e cultura. Vidas secas e desmoronadas, mas milionariamente belas e fortes, cheias de exemplos e paixões.

Em uma obra sem recurso algum, ele consegue mostrar sua beleza interior, tanto com sua visão como a visão que nós mesmos também damos para cenas que nos empolgam ou que nos repelem. A casa do brasileiro neste filme é a nossa casa visitada, mas contada por outros atores. Ficamos nus diante de uma realidade que nos pertence ou que estamos próximos. Uma versão não glamourizada de estrelas contentes e batalhadoras.

Porteiros também não ficam de fora do elenco, eles também contribuem, majestosamente, com seus informes, comentários e também suas outras histórias.

Eduardo Coutinho com sua experiência de diretor consegue captar a verdade além da lente, ele não diz “ação” para estes atores, mas apenas liga sua câmera e deixa fluir a espontaneidade e natureza sem palavras dos brasileiros deste país.

Uma obra que dá prazer de se ver, um trabalho esplendoroso, pois suga a alma dos outros e deixa a sua com vontade de “quero mais”. Sua técnica talvez seja a não técnica específica, mas o dom que tem de deixar as pessoas à vontade para contar suas façanhas entre os meandros desta vida que não é nada fácil para muitos.

Para Coutinho, o brasileiro talvez seja o maior motivo de seu trabalho, pois é dele que ele aperta o corpo e tira o suco que poucos conseguem extrair, mas sem muito açúcar e também nada muito salgado, apenas a verdade como ela é, ou seja, uma verdade bem dosada.

Um edifício que fala por si só, mas que com o documentário, não precisa falar mais nada.

“Edifício Master” é um filme que fala pouco, mas que cala muitos.

João Aranha